Perspectivas em saúde pública e saúde coletiva são discutidas em evento promovido pelo ObDANT


O Observatório de Doenças e Agravos Não Transmissíveis (ObDANT) da Escola de Enfermagem da UFMG realizou, na ultima sexta-feira, 21, o lançamento do vídeo “Saúde Pública e Saúde Coletiva: conceitos, interseções e perspectivas no âmbito do SUS”, seguido de uma mesa-redonda sobre o tema. O evento contou com a participação do pesquisador e coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Rômulo Paes de Sousa, e da professora da Faculdade de Medicina da UFMG, Elis Mina Soraya Borde. Professores e estudantes também participaram do evento, que promoveu reflexões sobre o cenário histórico, os desafios e aproximações entre saúde pública e saúde coletiva no Brasil.

Mesa de abertura do evento

Durante a mesa de abertura, a diretora da EEUFMG, professora Sônia Maria Soares, reafirmou o compromisso social da Unidade em contribuir para a promoção da saúde pública e da saúde coletiva em prol do Sistema Único de Saúde (SUS). “É uma satisfação poder trabalhar temas tão essenciais no que diz respeito à nossa responsabilidade social no desenvolvimento e nas ações que envolvem o SUS. Cada vez mais, enfrentamos questões complexas e desafiadoras, e a defesa do nosso sistema de saúde é fundamental para preservarmos a saúde da população, através do trabalho dos profissionais de saúde. Enquanto Universidade, preparamos as gerações para que tenhamos profissionais qualificados e competentes para avançar no contexto das nossas políticas públicas.”

Saúde Pública e Saúde Coletiva
A coordenadora do ObDANT, professora Deborah Carvalho Malta, do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública, enfatizou que o novo vídeo educativo foi concebido para apresentar conceitos, fatos históricos e disparar reflexões no contexto da disciplina Saúde Coletiva, ofertada aos alunos ingressantes no curso de graduação em Enfermagem. O objetivo do vídeo educativo é ampliar o conhecimento em saúde, fortalecer o debate e reafirmar a importância da saúde coletiva e do Sistema Único de Saúde. “O vídeo destaca dois momentos: a fundação do SUS, em 1988, que foi um momento de redemocratização e ampliação da participação social; e a pandemia, quando tivemos que nos reinventar perante o negacionismo à ciência e às vacinas. Em ambas as situações, foi a saúde coletiva que lutou pela vida, pela democracia e pelo SUS.”

Disponível no Youtube, o vídeo narra, de maneira sintética, marcos históricos e as principais diferenças entre a saúde pública e a saúde coletiva no contexto brasileiro. De acordo com o material, a saúde pública foca em técnicas biomédicas, controle de epidemias e vigilância sanitária estatal, enquanto a saúde coletiva surge como um campo interdisciplinar de saberes e de práticas que prioriza os determinantes sociais da saúde e a justiça social. Também destaca o movimento da Reforma Sanitária como fundante do SUS, estabelecendo a saúde como um direito universal e democrático.  

Mesa-redonda
Ao iniciar o debate, o professor Rômulo Paes destacou que a saúde coletiva é fortemente influenciada pelas ações estatais, sendo o governo um financiador direto ou indireto das iniciativas que visam o bem-estar da população. “A pandemia de Covid-19 nos mostrou que não basta ter capacidade e recursos disponíveis. É preciso que as decisões políticas e a governança sobre os fenômenos sanitários sejam bem colocadas e aliadas aos serviços de saúde, senão, os fracassos podem ser redundantes”, afirmou. Ele também sinalizou que os avanços em saúde pública no Brasil são notáveis, mas necessitam de constante progresso. “O desenvolvimento acelerado das tecnologias, as crises simultâneas que ocorrem ao redor do país e a maior compreensão dos determinantes sociais da saúde são desafios que permeiam a saúde pública.”

Rômulo Paes

Ele destacou, ainda, que apesar de distintas, a saúde pública e a saúde coletiva devem ser vistas sob uma mesma perspectiva, para que as políticas públicas se tornem mais abrangentes e bem direcionadas. “A grande diferença é que na saúde coletiva você observa os chamados determinantes distais dos eventos sanitários. Enquanto a saúde pública busca entender as variáveis epidemiológicas de um evento, a saúde coletiva estuda a forma como esses eventos afetam de maneiras diferentes os grupos populacionais a depender das condições políticas, econômicas e culturais. Ao olharmos separadamente para esses fatores, perdemos a influência conjunta que eles têm sobre a vida dessas pessoas.”

A professora Elis Mina contribuiu para a discussão ao destacar que a saúde coletiva não se limita a uma formulação teórica, mas representa uma reformulação que orienta as práticas e as reflexões em saúde. “A saúde coletiva é um termo originado no Brasil e na América Latina, e que, no país, surgiu justamente no período de redemocratização pós ditadura militar, na década de 1980. Entender a necessidade de transformação social muda completamente a forma como produzimos conhecimento, porque torna o acesso à saúde democrático e depende de uma atuação organizada e responsável por parte do governo. O SUS é, portanto, a materialização do campo da saúde coletiva, de um projeto de sociedade mais igualitário.”


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