Na última sexta-feira, 16 de janeiro, o professor do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da da Escola de Enfermagem da UFMG, Francisco Carlos Félix Lana, coordenador da BVS Enfermagem, da Rede Biblioteca Virtual em Saúde e líder do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Hanseníase (NEPHANS/UFMG), concedeu entrevista ao programa Conexões, da Rádio UFMG Educativa. Ele destacou a necessidade de conscientização acerca dos impactos da hanseníase, do estigma relacionado à doença e da importância do diagnóstico precoce, temas relevantes para a campanha Janeiro Roxo.
O professor Francisco explicou que o diagnóstico precoce é o primeiro passo para a cura da doença, seguido de exames clínicos e tratamento disponibilizados gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “O importante é que seja feito o diagnóstico precoce. Para isso, as pessoas precisam conhecer os sinais e sintomas e os profissionais de saúde têm que estar capacitados, principalmente na atenção primária à saúde, que é o primeiro contato das pessoas com o SUS”, afirmou.
O professor titular Francisco Lana e a mestranda Isis Milani de Sousa Teixeira, do Programa de Programa de Pós-graduação em Enfermagem, realizando exame Dermato-neurológico em uma pessoa com lesões sugestivas (suspeitas) de hanseníase.
De acordo com dados do Ministério da Saúde, entre 2014 e 2023, o Brasil registrou mais de 247 mil novos casos de hanseníase, tornando-se o segundo país com mais casos no mundo. Minas Gerais esteve abaixo da média nacional, com 1.294 casos em 2024 e 1.080 em 2025. O abandono do tratamento é um dos principais desafios, com índice de 4,5% em 2014 e 8% em 2023, representando um aumento de quase 79%.
O que é a hanseníase
A hanseníase é uma doença infecciosa crônica, causada pela bactéria micobacterium leprae, normalmente transmitida pelas vias aéreas superiores, por meio de espirros, tosses, fala ou contato prolongado com pacientes não tratados na forma contagiosa. Não se transmite por objetos como copos, talheres e outros modos. Segundo o especialista, caso não tratada, a doença é capaz de causar lesões incapacitantes, resultando em atrofia muscular, perda de movimentos e de sensibilidade.
O especialista enfatizou que o conhecimento a respeito dos sintomas é fundamental para o diagnóstico e tratamento precoces, que podem evitar complicações graves. “Os primeiros sinais e sintomas são manchas claras ou avermelhadas na pele, e também sinais nervosos, como perda de sensibilidade na ponta dos dedos. Apesar de ser uma doença crônica, milenar, muitos profissionais de saúde não se atentam a esses sinais e essa lesão inicial na pele vai comprometendo mais nervos e pode trazer deformidades importantes, que são responsáveis pelo estigma. Quanto mais se demora a iniciar o tratamento, mais pessoas serão contagiadas”, completou.
Palestra ministrada pelo professor Francisco para pais de escolares em escola de nível fundamental do município de Almenara
Prevenção e estigma
O professor destacou que o tratamento é feito por meio de poliquimioterapia por 6 a 12 meses, interrompendo a transmissão logo na primeira dose, mas que a desinformação e o preconceito são os principais desafios no combate à hanseníase. “Muitas vezes, o próprio paciente esconde a doença da família para não ser discriminado, e muitos atrasam o seu diagnóstico com medo também do que ele poderia levar em termos de repercussão e impacto na vida social e econômica. É exatamente esse estigma e preconceito que causam condutas de afastamento por parte das pessoas que adoecem em relação aos seus familiares, os seus familiares em relação a essas pessoas e dessas pessoas em relação à sociedade.Importante salientar que o exame dos contatos domiciliares e sociais é uma estratégia de vigilância epidemiológica essencial, inclusive podem receber a segunda dose da BCG que oferece uma prevenção cruzada estimulando mecanismos de defesa”.
Entre os tópicos enfatizados, o professor Francisco destacou o papel dos profissionais de saúde no acolhimento, vínculo e tratamento dos pacientes. “A atenção primária à saúde é uma rede que, se bem capacitada, pode reduzir o abandono do tratamento muito bem. Ou seja, ela tem que monitorar esses pacientes, caso ele não compareça ao serviço, fazer visitas domiciliares, contatos por telefone, para que essas pessoas não abandonem o tratamento, porque às vezes, no início do tratamento, a pessoa sente uma melhora e acha que já não precisa mais.”
Ele concluiu afirmando que é necessário desmistificar o medo em torno da doença, e ressaltou a importância de campanhas que discutam o combate à hanseníase, como o Janeiro Roxo. “A primeira coisa é informação de qualidade. A hanseníase é uma doença de baixa patogenicidade, de alta infectividade e curável. A doença não é um terror, ela não causa essa transmissão da forma como as pessoas estão achando. O Janeiro Roxo é uma forma de levantar o tema e colocá-lo em evidência, de forma que a gente possa avançar.”
Janeiro Roxo
O Janeiro Roxo é o mês de combate à hanseníase no Brasil e no mundo, oficializado em 2016 pelo Ministério da Saúde para alertar e conscientizar a sociedade sobre os impactos da doença. O mês foi escolhido em alusão ao Dia Mundial Contra a Hanseníase que, em 2026, é celebrado no dia 25 de janeiro.
