Especialistas discutem estratégias para aumentar cobertura vacinal


A UFMG sedia, nos dias 23 e 24 de junho, o III Congresso Brasileiro Defesa da Vacinação e o I Congresso Internacional de Imunização: compromisso global com a ciência, a saúde e a vida” com uma série de debates, apresentações e discussões a respeito da importância da imunização e da criação de estratégias para ampliar as taxas de vacinação nos municípios brasileiros. Promovido pelo Observatório de Pesquisa e Estudos em Vacinação da Escola de Enfermagem da UFMG (OPESV-EEUFMG), em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) e com apoio da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), os eventos reúnem profissionais e gestores da saúde, integrantes do controle social, pesquisadores, docentes, estudantes e pessoas que defendem a vacinação como um direito e uma política pública essencial.

Mesa de abertura dos congressos: Plano Nacional de Imunização é construção coletiva
Foto: Jebs Lima | UFMG

Partindo do reconhecimento dos avanços históricos do Brasil na construção de um programa nacional de imunizações universal, gratuito e reconhecido internacionalmente, os congressos propuseram uma reflexão crítica sobre os desafios contemporâneos, como a queda das coberturas vacinais, a hesitação vacinal, a desinformação e as desigualdades territoriais no acesso.

As palestras e mesas-redondas contaram com reflexões sobre as inovações globais em imunização, tais como o uso da inteligência artificial. A presidente dos congressos, professora da Escola de Enfermagem e líder do Observatório de Pesquisa e Estudos em Vacinação (Opesv), Fernanda Penido Matozinhos, disse que o encontro, além de subsidiar a formulação de políticas públicas na área de imunização, contribui diretamente para o fortalecimento do Programa Nacional de Imunizações (PNI) e das estratégias estaduais e municipais de vacinação.

“Este evento sinaliza, mais uma vez, a parceria entre a universidade e os serviços de saúde para a melhoria das nossas coberturas vacinais. Precisamos fazer com que o conhecimento chegue de forma clara e acessível ao usuário para que ele utilize os serviços de saúde e para que a gente melhore a nossa cobertura vacinal. Assim, temos aqui uma união de forças e saberes dentro de um lugar tão seguro como a nossa Universidade.”

O evento reuniu mais de seiscentas pessoas no campus Pampulha. Foto: Alessandro Carvalho

Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde, falou sobre a importância de que o Brasil retome seu protagonismo global na área de imunização. “Um evento como esse permite que façamos trocas de experiências, e isso nos ajuda a qualificar a construção de políticas públicas. O PNI só se efetiva com a ajuda dos profissionais locais nos diversos territórios brasileiros”, disse.

Gatti lembrou que o PNI brasileiro tem mais de 50 anos e é um dos programas de imunização mais exitosos do mundo, já tendo erradicado ou diminuído a incidência de doenças como a poliomielite, o sarampo, a rubéola e o tétano neonatal, além de ter contribuído para o controle de várias doenças imunopreviníveis. “O brasileiro precisa acreditar no seu programa de imunização, que é o maior do mundo. O nosso Sistema Único de Saúde (SUS) oferece vacinas que são seguras e que protegem”, destacou.

A ampliação da cobertura vacinal enfrenta, segundo a professora Fernanda Matozinhos, a desinformação e as fake news. Ela lembra que, depois da pandemia da covid-19, muitas pessoas passaram a questionar a segurança e a eficácia das vacinas, o que diminuiu a cobertura vacinal no país. “Estamos em um momento de muita desinformação e de fake news, e esse é um problema multifatorial. Para um problema que tem muitas causas, a gente precisa obviamente de múltiplas estratégias. Precisamos não só melhorar o acesso às vacinas, mas fazer com que a informação chegue a quem realmente precisa. Muitas vezes, as pessoas não se vacinam por desconhecimento dos riscos das doenças, por isso precisamos deixar claro que os benefícios superam qualquer eventual pequeno risco e que as vacinas são seguras.”

Fernanda Matozinhos: união de forças e saberes na universidade
Foto: Alessandro Carvalho

Desafios em Minas
Na mesa de abertura do evento, realizada nesta terça-feira, dia 23, os participantes falaram dos desafios de ampliar a cobertura vacinal no estado de Minas Gerais. Trata-se de um estado complexo devido à sua extensão – 853 municípios divididos em 16 macrorregiões com realidades epidemiológicas distintas). Eduardo Campos Prosdocimi, da Subsecretaria de Vigilância em Saúde da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, contou que a queda da cobertura vacinal no estado teve início em 2015, atingindo sua pior marca durante a pandemia da covid-19.

Para retomar os bons índices, o governo do estado planejou oficinas regionais com monitoramento sistemático, qualificou profissionais com cursos de boas práticas, firmou parcerias com instituições de pesquisa, como a UFMG, monitorou dados para a melhor tomada de decisão e gestão, investiu em campanhas de vacinação e criou o vacimóvel, uma unidade móvel de saúde – geralmente uma van adaptada – que funciona como sala de vacinação volante.

Eduardo Prosdocimi, da Subsecretaria de Vigilância em Saúde da SES-MG.Foto: Alessandro Carvalho

“O fortalecimento das coberturas vacinais em Minas Gerais é resultado da integração entre gestão, financiamento, ciência, comunicação e atuação local. Se temos hoje o desafio de aumentar a imunização, o desafio será sustentar uma política permanente de imunização”, disse Prosdocimi. Eder Gatti acrescentou que uma política permanente de imunização se faz por meio de construção coletiva. “O Ministério da Saúde, sozinho, não consegue elaborar e implementar as políticas públicas, então é fundamental que as secretarias estaduais e municipais de saúde estejam juntas nesse esforço. O SUS é uma construção coletiva.”

A pró-reitora de pós-graduação da UFMG, Isabela Almeida Pordeus, acrescentou que a atuação coletiva pode ter início na academia, onde o conhecimento é construído. Segundo ela, a universidade tem o compromisso de resguardar a saúde e o cuidado com a vida, contribuindo para a cidadania e para a justiça social. “Nossa atuação, como universidade pública, transcende o ato de vacinar. Aumentar a vacinação é um compromisso global, e a UFMG enfrenta esse desafio há muito tempo. Temos um compromisso com o SUS e com a vida, e isso só é possível por meio da união dos entes e da nossa produção de conhecimento”, concluiu.

Prêmio Amigos do Zé Gotinha
Durante o congresso, foi realizada a entrega do Prêmio Amigos do Zé Gotinha, que reconhece experiências desenvolvidas em Minas Gerais para fortalecer as práticas de vacinação, ampliar as coberturas vacinais e aproximar saúde e educação nos territórios.

Na modalidade voltada aos municípios, foram reconhecidas ações de boas práticas em vacinação nas categorias Referência em Imunização, Excelência em Imunização e Compromisso em Imunização. As cidades selecionadas foram divididas em três portes populacionais, conforme os critérios definidos em edital, publicado em março de 2026.

 Entrega da premiação aos municípios e escolas.Foto: Alessandro Carvalho

Também foram reconhecidas escolas com o selo “Escola Amiga da Vacinação”. Cinco projetos foram selecionados, desenvolvidos em Ipatinga, Pompéu, São Joaquim de Bicas, São Brás do Suaçuí e Miravânia. As experiências estão sendo apresentadas na sessão de pôsteres do congresso.

A iniciativa valoriza ações que fortalecem a mobilização nos territórios, estimulam a integração entre saúde e educação e contribuem para ampliar o acesso da população às vacinas. Confira os contemplados neste link.

Revista de experiências exitosas

Durante o evento foi realizado também o lançamento da segunda edição da “Revista de experiências exitosas para o aumento das coberturas vacinais em Minas Gerais, Brasil”, um projeto editorial do OPESV-EEUFMG, em parceria com SES-MG e apoio da OPAS, que traz relatos de experiências de promoção da saúde em escolas e municípios de todo o estado. 

Entrega da revista aos municípios e escolas.Foto: Alessandro Carvalho

A professora Fernanda Penido destaca que esta edição consolida o pioneirismo de Minas Gerais no cenário nacional de imunização e demonstra o fortalecimento da integração entre os setores da saúde e da educação.“É com muita alegria que lançamos a segunda revista de experiências exitosas, com o caráter inovador de  trazer as experiências dos municípios e também das escolas. Mais do que um artigo científico, esse é um momento de reconhecer o trabalho realizado nos territórios e documentar os feitos. A revista é um retrato sensível de dezenas de experiencias boas e que suscitam a mudança de praticas nos nossos territorios para a valorização do cuidado, do bem estar e da vacinação.”

Atuação das instituições para o aumento das coberturas vacinais
A palestra de abertura “Atuação das instituições para o aumento das coberturas vacinais” contou com apresentações da professora Fernanda Penido, do Diretor do Departamento de Imunização e Doenças Imunopreveníveis (DPNI/SVSA) do Ministério da Saúde, responsável pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI), Éder Gatti; a Assessora de Imunização e Coordenadora da Iniciativa de Imunização da Organização Pan-Americana da Saúde no Brasil (OPAS), Lely Guzman, e do Subsecretário de Vigilância em Saúde da SES/MG, Eduardo Prosdocimi e do Diretor do Departamento de Saúde da Família do Ministério da Saúde, José Eudes Barroso, com mediação da Vanessa Coelho Membro do Observatório de Pesquisa e Estudos em Vacinação e da Superintendente de Vigilância Epidemiológica Aline Lara Cavalcante Oliva.

Discussão sobre a atuação das instituições para o aumento das coberturas vacinais . Foto: Alessandro Carvalho

Em sua fala, Gatti abordou a trajetória do PNI e os marcos históricos da vacinação no Brasil que contribuíram para o aumento da cobertura vacinal e do acesso da população, como a erradicação nacional da poliomielite, em 1994, e do sarampo, em 2024. Também destacou a adoção de medidas por parte do Ministério da Saúde que visam combater a hesitação vacinal e promover a igualdade de acesso em diferentes regiões do país, desde a disponibilização de recursos financeiros para as unidades de saúde regionais até o lançamento de campanhas de capacitação como o imunizaSUS e aplicativos digitais como o eSUS.

O Subsecretário de Vigilância em Saúde, Eduardo Prosdocimi, sintetizou a atuação da SES-MG em parceria com o OPESV-EEUFMG para a recuperação dos altos índices de cobertura vacinal no estado, mediante à queda experienciada a partir de 2015. Ele explica que, desde 2023, com o lançamento do programa de imunização “Vacina+ Minas”, a iniciativa do Vacimóvel e a realização de oficinas de planejamento vacinal nos municípios através da parceria com o OPESV, a vacinação se tornou um processo ampliado, qualificado e mais igualitário, garantindo o acesso à saúde pública em diferentes contextos sociais e geográficos.

Adriano Martins abordou os avanços e desafios do Brasil e demais países da América Latina no alcance das metas previstas pela Agenda de Desenvolvimento Sustentável até 2030, como a dificuldade de ampliação da cobertura vacinal. O representante da OPAS/OMS e consultor nacional de imunizações no Brasil ressaltou que o pacto global estipulado pela Organização das Nações Unidas (ONU) prevê, entre outros objetivos, o apoio à pesquisa e desenvolvimento de vacinas e medicamentos para a prevenção e tratamento de doenças transmissíveis e não transmissíveis.

Inovações tecnológicas em saúde
O segundo dia de evento contou com discussões sobre inovação tecnológica a favor da população, aumentando o acesso às vacinas. A palestra “Inovações Globais em Imunização: o uso da Inteligência Artificial (IA)”, ministrada pelo professor da University of Technology Sydney (UTS), Jaime Garcia. Ele diferenciou os tipos de IAs entre fracas – aquelas treinadas para apenas uma função — e fortes, capazes de desempenhar diferentes ações, como as IAs generativas. Segundo ele, a inteligência artificial é uma inovação tecnológica que pode ser aliada à promoção de iniciativas de vacinação, na medida em que auxilia os profissionais de saúde a desenvolverem campanhas com comunicação personalizada, aplicativos de mapeamento de dados sociodemográficos e jogos interativos voltados à educação em saúde. A mediação da mesa foi das professoras Sheila Aparecida Ferreira Lachtim e Isabela Silva Câncio Velloso, da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo e  da Escola de Enfermagem da UFMG, respectivamente.

Professor Jaime Garcia. Foto: Alessandro Carvalho

A professora Fernanda também apresentou o painel de atividades desenvolvidas pelo OPESV, onde analisou o panorama vacinal dos últimos quinze dias em Minas Gerais, com o objetivo de compreender avanços e desafios no cumprimento de metas estipuladas para a cobertura vacinal e fatores atrelados à hesitação vacinal. “A vacinação no âmbito escolar ainda precisa avançar, e temos estimulado essa parceria com os órgãos de educação durante as oficinas ministradas pelo OPESV no estado. Análises iniciais demonstraram associações importantes entre campanhas de vacinação bem desenvolvidas e a queda de indicadores de risco para transmissão de doenças imunopreveníveis. A cobertura vacinal aumentou de forma significativa em todo o estado, mas precisamos incentivar ainda mais”, destacou.

A palestra foi seguida por um momento de homenagem aos profissionais de Enfermagem que atuam na salas de vacinas do Brasil, além dos integrantes do OPESV e da SES-MG, que receberam certificados de comprometimento e foram aplaudidos pela contribuição à saúde pública em Minas Gerais e no Brasil. A professora Fernanda destacou que a vacina chega à população por meio das mãos, do compromisso e da dedicação de milhares de profissionais que, diariamente, acolhem, orientam, educam e vacinam a população brasileira. “São profissionais que enfrentam desafios cotidianos, superam distâncias, combatem a desinformação e mantêm viva uma das mais importantes políticas públicas de saúde do mundo”.

Apresentação de pôsteres
O evento contou, ainda, com momentos de apresentação de pôsteres  sobre as experiências exitosas desenvolvidas em diversas cidades mineiras, onde os próprios agentes de saúde dos municípios e escolas puderam detalhar as abordagens adotadas e as finalidades específicas.

Enfermeira Jéssica Faria

A enfermeira Jéssica Faria, coordenadora da Atenção Primária à Saúde (APS) do Município de Conselheiro Lafaiete, destacou o congresso como uma importante forma de apresentar e valorizar práticas do cotidiano de profissionais da saúde. “Essa é a terceira edição do Congresso Nacional Defesa da Vacinação que eu venho, e na próxima que tiver eu quero trazer mais uma experiência, porque quando você vê a sua atuação no dia a dia sendo valorizada e gerando ideias para outros municípios, você sente vontade de trazer o que você faz e inspirar outros profissionais. Eu vi aqui muitas ideias boas, ainda mais com o lançamento da revista, que trouxe muito conhecimento a ser compartilhado.”

Apresentando a experiência exitosa de Berilo, uma cidade com 9,6 mil habitantes, a enfermeira Milena de Oliveira Araújo reiterou a importância da atuação conjunta em prol da saúde pública e do direito à vacinação. “O evento foi maravilhoso, muito enriquecedor, é ótimo fazer parte e poder ter uma experiência exitosa aprovada e contemplada na revista. Quando falamos de vacinação, nós temos que pensar no futuro que queremos para os nossos filhos e os nossos familiares. Através do SUS, podemos construir um futuro saudável, com crianças saudáveis, mas temos que defender o que é nosso e combater a hesitação vacinal.”

(Com Centro de Comunicação da UFMG e Agência Minas)


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