Estudo constata que planejamento, capacitação e ações locais são determinantes para ampliar cobertura vacinal


Um estudo que avaliou os 853 municípios de Minas Gerais, Brasil, identificou que a qualidade da gestão municipal e estadual é um dos principais fatores para o alcance das metas de vacinação e para a redução do risco de transmissão de doenças preveníveis por vacinas. A pesquisa, realizada pelo Observatório de Pesquisa e Estudos em Vacinação da Escola de Enfermagem da UFMG (OPESV/EEUFMG) demonstrou que municípios com melhor desempenho em planejamento, qualificação das equipes e execução de estratégias de imunização apresentam resultados mais favoráveis nas coberturas vacinais e menor vulnerabilidade epidemiológica.

A pesquisa avaliou sete indicadores de gestão vinculados ao Programa Mineiro de Imunizações (PMI), incluindo qualificação profissional, elaboração de planos de ação, realização do Dia D de vacinação, ações extramuros, vacinação em escolas e indicadores de cobertura para 13 imunobiológicos do calendário vacinal: BCG, Rotavírus, Pneumocócica 10 Valente, Meningocócica C, Pentavalente, VIP (Vacina Inativada Poliomielite), Febre Amarela, Primeiro Reforço da Pneumocócica 10, Primeiro Reforço da Meningocócica C, Segunda Dose da Tríplice Viral, Reforço da VIP, Primeiro Reforço da DTP e Hepatite A Infantil. O desempenho municipal também foi analisado a partir de dois índices de avaliação do risco de transmissão de doenças preveníveis por vacinas.

Os resultados demonstraram que municípios mais organizados e com melhor capacidade operacional alcançam coberturas vacinais mais elevadas e apresentam menor risco de transmissão de doenças preveníveis por vacinas. Por outro lado, localidades classificadas em estratos de maior risco epidemiológico tiveram menor probabilidade de atingir tanto as metas operacionais quanto as metas de vacinação.

Professora Fernanda Penido ministrando o curso de práticas em vacinação em Teófilo Otoni

A professora da EEUFMG, Fernanda Penido Matozinhos, e coordenadora do OPESV, enfatizou que um dos achados mais relevantes do estudo foi a constatação de que o número de metas operacionais cumpridas pelos municípios apresentou associação significativa com todos os 13 imunobiológicos avaliados. “Foi ainda mais evidente em vacinas fundamentais para a infância, como a VIP (poliomielite), a Pentavalente e os reforços das vacinas Pneumocócica 10-valente e Meningocócica C. Isso significa que ações como planejamento, qualificação das equipes, mobilização social e organização dos serviços não representam apenas atividades administrativas, mas influenciam diretamente a efetividade dos programas de imunização”.

Ela destaca, ainda, que os resultados mostram que a cobertura vacinal é fortemente influenciada pela capacidade de organização dos serviços locais. “Quando o município consegue estruturar suas ações, qualificar equipes e monitorar indicadores, as chances de alcançar as metas de vacinação aumentam significativamente”, afirma a professora.

Capacitação fortalece as ações de imunização
A pesquisa identificou que a qualificação dos profissionais que atuam nas salas de vacina foi um dos indicadores com melhor desempenho em todo o estado. Mais de 90% dos municípios cumpriram as metas de capacitação, independentemente do porte populacional. O destaque ficou para os municípios de grande porte, com mais de 80 mil habitantes, que alcançaram 97,87% de cumprimento da meta, mesmo diante de exigências mais rigorosas. Já os municípios com até 16 mil habitantes e aqueles com população entre 16 mil e 80 mil habitantes registraram resultados semelhantes, de 91,52% e 91,16%, respectivamente. Os dados reforçam a ampla adesão às estratégias de educação permanente e fortalecimento das equipes de imunização em Minas Gerais.

Segundo os pesquisadores, a formação permanente dos profissionais de saúde é reconhecida como um dos pilares para garantir a qualidade dos serviços de imunização e a implementação adequada das estratégias de vacinação nos territórios. “Planejamento e qualificação profissional foram os componentes com melhor desempenho entre os municípios mineiros. Isso demonstra a força das estratégias de apoio técnico desenvolvidas pelo Programa Mineiro de Imunizações e sua capacidade de induzir melhorias na gestão local”, destaca a professora Fernanda Penido.

Jogo para simulação da Imunidade Coletiva, Macrorregião de Saúde do Triângulo Mineiro: Ituiutaba e Uberlândia

Vacinação nas escolas e desigualdades territoriais ainda desafiam municípios
Apesar dos avanços observados na gestão da imunização, o estudo aponta desafios importantes na execução de algumas estratégias consideradas fundamentais para ampliar o acesso às vacinas.

A vacinação em ambiente escolar apresentou um dos desempenhos mais baixos entre os indicadores analisados. Menos da metade dos municípios alcançou a meta estabelecida, com resultados ainda mais limitados nas cidades de maior porte populacional.

O dado chama atenção porque evidências científicas apontam a escola como um dos ambientes mais eficazes para ampliar a cobertura vacinal, alcançar grupos com dificuldades de acesso aos serviços de saúde e reduzir desigualdades.
“O fortalecimento das ações de vacinação nas escolas depende de uma articulação mais intensa entre os setores de saúde e educação, além de estratégias de comunicação capazes de enfrentar a hesitação vacinal entre profissionais da educação, estudantes e famílias”, apontou a professora Fernanda.

Outro aspecto evidenciado pelo estudo foi a influência das desigualdades territoriais sobre os resultados da vacinação. Municípios classificados nos níveis mais elevados de risco para transmissão de doenças preveníveis por vacinação apresentaram menor frequência de alto desempenho operacional e piores resultados de cobertura vacinal.

A pesquisadora lembra que territórios mais vulneráveis enfrentam desafios adicionais para garantir o acesso da população às vacinas. “Por isso, políticas públicas que considerem as desigualdades sociais e regionais são fundamentais para promover maior equidade na proteção vacinal”, observa.

A pesquisa também destaca a importância de estratégias, como vacinação extramuros, busca ativa e ações comunitárias para alcançar populações vulneráveis e reduzir desigualdades no acesso à imunização.

Programa Mineiro de Imunizações fortalece políticas públicas
O subsecretário de Vigilância em Saúde da SES/MG, Eduardo Campos Prosdocimi, destacou que os resultados reforçam a relevância do Programa Mineiro de Imunizações como uma estratégia potente de fortalecimento das ações de vacinação no estado. “Ao associar financiamento, monitoramento sistemático de indicadores e apoio técnico aos municípios, o programa estimula a qualificação dos processos de trabalho, amplia o acesso à vacinação e fortalece a integração entre a Vigilância em Saúde e a Atenção Primária à Saúde”.

Ainda segundo ele, iniciativas como a qualificação dos profissionais das salas de vacina, o planejamento local, a vacinação em escolas e as ações extramuros contribuem para o fortalecimento dos programas municipais de imunização e para a recuperação sustentável das coberturas vacinais.

A pesquisa conclui que os eixos estruturantes da política estadual de imunização exercem influência decisiva no alcance das metas vacinais em Minas Gerais. Embora o estado apresente elevada capacidade administrativa em áreas como planejamento e qualificação profissional, persistem desafios relacionados à execução de estratégias em territórios mais vulneráveis e municípios de maior porte.

A professora Fernanda Penido enfatizou que o estudo demonstra que políticas estruturantes, associadas ao fortalecimento da gestão municipal, têm potencial para produzir resultados concretos na vacinação. Os achados oferecem evidências importantes para orientar decisões e aprimorar as estratégias de imunização em Minas Gerais. Com mais de 21 milhões de habitantes distribuídos em 853 municípios, Minas Gerais apresenta uma das maiores e mais complexas redes de vacinação do país. Nesse contexto, os resultados do estudo oferecem subsídios importantes para o aprimoramento das políticas públicas de imunização, contribuindo para reduzir desigualdades regionais e garantir maior equidade na proteção vacinal da população”.


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