Políticas de promoção da equidade em saúde são discutidas em mesa-redonda


Na manhã da última terça-feira, 7 de janeiro, foi realizada no auditório Maria Sinno da Escola de Enfermagem da UFMG a mesa-redonda “Políticas de Promoção da equidade em saúde: reflexões com enfoque para a população em situação de rua, LGBTQIAPN+ e pessoas com deficiência”. O evento, promovido no âmbito da disciplina de Saúde Coletiva, foi coordenado pelas professoras Deborah Carvalho Malta e Gisele Nepomuceno de Andrade, do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública.

A atividade contou com a participação da Subsecretária de Direitos Humanos e Cidadania no município de Contagem, Lorena Luiza Chagas Lemos; da egressa da EEUFMG e supervisora do CERSAM AD Nordeste, Camilla Salviano Salomão Sanson  e da professora e cientista da UFMG, Aline Castro, que, respectivamente, abordaram os temas: reflexões na perspectiva da comunidade LGBTQIAPN+; experiências no Consultório na Rua e equidade no atendimento a pessoas com deficiência.

Professora Deborah Malta

“Nem sempre as políticas de proteção a essas populações são implementadas, isso para além da política depende da participação social, da nossa cobrança. Essas discussões são importantes para incomodar, sair do nosso lugar de conforto, enxergar as diferenças e podermos nos tornar profissionais mais completos e humanizados”, destacou a professora Deborah Malta, sobre a importância e objetivo da mesa-redonda.  A professora Giselle de Andrade, durante as boas-vindas, reafirmou a importância da discussão junto ao alinhamento com as políticas de equidade do Sistema Único de Saúde (SUS).

Desafios enfrentados pela comunidade LGBTQIAPN+
Lorena Lemos abordou os direitos da comunidade LGBTQIAPN+. Ela enfatizou que, de acordo com a Constituição Federal do Brasil, “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, algo que se repete no princípio de equidade do SUS. No entanto, ela assinalou o contraste ao discursar sobre os desafios enfrentados pelas pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ nos serviços de saúde, envolvendo a exclusão e o preconceito, o que causa o afastamento da comunidade desses serviços e, potencialmente, o agravamento de condições que precisam de atendimento e acompanhamento.

Lorena Lemos

Ela enfatizou sobre a transfobia e a LGBTfobia sofrida por essas pessoas mesmo em espaços de oferta de cuidados de saúde, as quais acabam marginalizadas da sociedade em questões simples como buscar um atendimento, pois temem ir a uma unidade de saúde e não terem seu nome social respeitado ou terem sua orientação sexual invalidada. Lorena destacou, ainda, a Política Nacional de Saúde Integral LGBT, um instrumento de garantia do acesso, equidade e respeito à comunidade no SUS. “É importante para que as coisas mudem, que haja uma participação de todos nós, que nos posicionemos contra as diferenças e contra qualquer forma de preconceito, pois só assim conseguiremos mudar”.

Consultório na Rua
Camilla Salviano apresentou o projeto “Consultório na Rua”, uma iniciativa nacional do SUS que visa ampliar o acesso da população em situação de rua aos serviços de saúde, ofertando, de maneira mais oportuna, atenção integral à saúde para esse grupo populacional, que se encontra em condições de vulnerabilidade e com os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados. Ela falou sobre relatos, cuidados específicos e estigmas relacionados à população de rua. Camilla pontuou que muitas pessoas em situação de rua enfrentam problemas com drogas, sendo elas lícitas, como as bebidas alcoólicas, ou ilícitas. Ela afirmou que existe também uma grande parte que enfrenta sofrimento mental e, em ambos os casos, existem estratégias específicas para realização do atendimento em saúde e de persuasão para garantir a adesão a um tratamento, além de ações como a oferta de água e alimentos.

Camilla Salviano 

“Muitas vezes a pessoa não consegue realizar uma higiene e, por isso, tem vergonha de ir a um centro de saúde. O trabalho do consultório na rua tem uma importância de destaque para auxiliar nos cuidados com a saúde da população na rua, acaba servindo como a opção que é disponível a eles e também como uma tentativa de fazer a ponte entre essa população e os centros de saúde”, encerrou Camilla.

Cuidado inclusivo no SUS
A professora e cientista Aline Castro ministrou sobre “Cuidado inclusivo no SUS: equidade no atendimento a pessoas com deficiência”. Cadeirante devido à uma doença rara, cresceu entendendo a potência da diversidade. Com esta motivação, se qualificou em Políticas Públicas e é responsável por iniciativas de inclusão em diversos setores da sociedade. Ela tem Atrofia Muscular Espinhal (AME) e relatou um pouco das suas experiências de vida e sobre como percebeu que a cadeira de rodas e a AME não eram capazes de impedí-la de realizar as atividades de que tivesse interesse. Ela relatou, ainda, sobre como foi ter de lidar com adversidades tais como as imposições das pessoas que não possuem deficiências e a dificuldade de acolhimento e consideração de suas vontades e escolhas também por parte dos profissionais de saúde que lhe prestaram cuidados.

A professora Aline também abordou uma perspectiva histórica das práticas sociais adotadas perante as pessoas com deficiência na sociedade, desde períodos de total exclusão da vida social à ainda limitada aceitação na contemporaneidade. Ela pontuou que o fomento às políticas públicas para a pessoa com deficiência (PCD) ganhou força na transição do século XX para o século XXI, mas com uma perspectiva ainda restrita, calçada numa concepção de adaptação dessa população à sociedade. Somente mais recentemente se observou uma mudança desta concepção no sentido de promoção de uma inclusão ampla e respeitadora das diferentes condições pela sociedade.

Aline Castro

“Lembro que quando soube que eu poderia fazer fisioterapia fiquei animada, mas então me disseram que eu não podia fazer porque eu não conseguiria me reabilitar. Eu não entendia o motivo de isso ser importante. Afinal, por que o sucesso do deficiente tem que ser medido com o corpo normativo? Depois que eu voltei e fiz a fisioterapia, eu consegui me deitar e apoiar a cabeça com o braço, nunca tinha feito isso antes! Essa era a minha conquista, fiquei muito feliz. Como profissionais, busquem perceber e adotar a concepção de saúde como completo bem estar biopsicossocial e não apenas como ausência de doenças”, ressaltou Aline Castro.

Ao final do evento, a professora Deborah Malta comentou sobre as apresentações, reafirmando a importância dos alunos ouvirem e refletirem, ainda no 1º período, sobre essa temática e as diferentes formas de lidar com diversos grupos populacionais e suas singulares necessidades de saúde. “Refletir sobre essas questões pode moldar um bom profissional de saúde”, concluiu.


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