Neste mês do agosto dourado, de incentivo ao aleitamento materno, pesquisadores da Escola de Enfermagem da UFMG, Universidade Federal de São Paulo e Universidade de São Paulo divulgaram resultados de estudo que investigou as repercussões da Covid-19 na duração do aleitamento materno de 1.729 puérperas em Belo Horizonte, Minas Gerais, e analisou os fatores associados. A pesquisa constatou que mulheres pardas e mulheres que pariram via cesariana apresentaram maior incidência do desmame precoce em relação às mulheres brancas e pretas e as que pariram por via vaginal.
Foi um estudo epidemiológico, de coorte prospectiva, que teve como cenário três hospitais que atendem exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde – SUS na capital mineira. Foram analisados os prontuários de todas as mulheres que tiveram seus filhos nos três meses de maior incidência da Covid-19 (maio, junho e julho) no primeiro semestre de 2020. Posteriormente à coleta do prontuário, as puérperas foram contatadas via ligação telefônica após 2 meses de parto. Também foram contatadas 6 meses após o parto para investigação de alimento exclusivo (AME).
A coordenadora do estudo, professora Fernanda Penido Matozinhos, do Departamento de Enfermagem Materno-infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da UFMG, explicou que em relação à via de nascimento, mulheres submetidas à cesariana foram mais suscetíveis a interromper a amamentação. “Nesse sentido, é reconhecida a forte influência da cesárea nas dificuldades no processo de aleitamento materno ou no desmame precoce, uma vez que nesse tipo de cirurgia os recém-nascidos são menos expostos ao contato pele a pele e o efeito da anestesia restringe a prática da amamentação na primeira hora de vida”.
Para a cor da pele autorrelatada, mulheres pardas apresentaram taxas maiores para desmame precoce. De acordo com a pesquisadora, a associação entre os indicadores de processo do cuidado no pré-natal e a raça/ cor das mulheres demonstra que as mulheres pretas e pardas estão mais expostas às dificuldades de acesso e a uma assistência inadequada no pré-natal. Com relação à orientação sobre aleitamento materno durante a gestação, parto e pós-parto, um estudo transversal de base populacional aponta que gestantes pretas e pardas tiveram chances 33% menores de serem orientadas sobre o assunto. Houve um aumento das desigualdades sociais na saúde no período pandêmico, principalmente no acesso aos serviços. No Brasil, o impacto da pandemia destacou as disparidades raciais existentes na saúde”, ressaltou.
O estudo investigou os fatores associados à duração do aleitamento materno durante a pandemia da Covid-19. Foto: Fernando Frazão-Agência Brasil
Foram consideradas variáveis sociodemográficas (idade, escolaridade, renda, estado conjugal, raça/cor da pele), clínicas (doenças atuais/prévias e cirurgias prévias, uso de medicamentos, sinais e sintomas da SARS-COV-2), de estado de saúde (tabagismo, etilismo, hábito intestinal, prática de atividade física, acompanhamento com profissional de saúde e vacinação), obstétricas (número de partos, vias de nascimento, presença de acompanhante, práticas e intervenções durante o parto, desfecho reprodutivo e complicações do último parto, rede de apoio, alterações de atendimentos em virtude da pandemia do Covid-19, informações sobre a ocorrência de infecção/sintomas por SARS-CoV-2 na participante e no seu filho, incluindo separação do binômio), além informações específicas sobre o aleitamento materno (tipo, dificuldades, interferências da pandemia da COVID-19 no aleitamento, doação de leite, aleitamento na 1ª hora de vida). Em relação à dificuldade na amamentação, essa variável foi verificada por meio de relato da puérpera sobre a ocorrência de algum “trauma mamilar, mama endurecida, vermelha, machucada ou que precisou de usar antibiótico”.
A professora Fernanda Penido enfatizou que o aleitamento materno é importante para a redução da mortalidade infantil, para o fortalecimento do sistema imunológico, o desenvolvimento do sistema estomatognático e para a prevenção de infecções respiratórias. “A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que o leite materno seja o alimento exclusivo (AME) até os 6 meses de vida e até os 24 meses de vida, pelo menos, como alimento complementar. Apesar das vantagens, a prevalência de aleitamento materno no Brasil está muito aquém da meta de 60% estabelecida pela OMS para o ano 2030. Isso justifica-se pelo fato de que a amamentação é um processo complexo e envolve não apenas os fatores individuais, a pandemia foi circunstância influenciadora para o desmame precoce, sobretudo quando relacionada à saúde mental materna e às desigualdades sociais e econômicas. Soma-se que a Covid-19, doença respiratória causada pelo vírus SARS-Cov-2, tornou-se importante fator de influência para a amamentação”, destacou.
Os resultados apontaram, ainda, que 88,65% tiveram recém-nascido com peso superior a 2499 gramas, 98,27% não apresentaram infecção ou suspeita pelo vírus SARS-Cov-22, a maioria das mulheres era multíparas (62,32%) , 53,77% não apresentaram intercorrência clínica ou obstétrica, 89,68% estavam com acompanhante durante o parto, 72,67% realizaram parto vaginal, 77,9% não tiveram intercorrência com o recém-nascido e 77,50% realizaram 6 ou mais consultas de pré-natal.
“Tais achados são importantes para nortear a assistência da equipe multiprofissional, em especial a da equipe de enfermagem, durante o pós-pandemia e em cenários epidemiológicos críticos futuros ou recorrentes”, concluiu a professora.
