Entorno do transporte público em BH oferece mais ultraprocessados que alimentos saudáveis, aponta Escola de Enfermagem da UFMG


Em Belo Horizonte, quem circula por estações e pontos de transporte público encontra com mais frequência estabelecimentos que comercializam alimentos ultraprocessados do que opções de alimentos in natura ou minimamente processados. É o que revela um estudo do Grupo de Estudos, Pesquisas e Práticas em Ambiente Alimentar e Saúde (GEPPAAS), coordenado pela professora Larissa Loures Mendes, do Departamento de Nutrição da Escola de Enfermagem da UFMG. A pesquisa analisou o ambiente alimentar no entorno de 47 estações de ônibus, 47.003 pontos de ônibus e 18 estações de metrô da capital mineira, considerando estabelecimentos localizados em um raio de até 500 metros.

A professora Larissa Mendes explica que, por se tratarem de espaços urbanos de grande tráfego, as instalações de transporte público podem influenciar o acesso a alimentos e as escolhas alimentares, especialmente em ambientes socialmente vulneráveis. “O ambiente alimentar é um determinante-chave dos comportamentos alimentares e da saúde da população, moldado pelas condições físicas, econômicas, políticas e socioculturais. As instalações de transporte público conectam diferentes bairros e são usadas diariamente por um grande número de pessoas, especialmente aquelas que vivem em áreas socialmente vulneráveis. Consequentemente, o ambiente alimentar ao redor dessas instalações pode influenciar a compra e o consumo de alimentos durante o deslocamento diário.”

Foto: Agência Brasil

Ao todo, foram identificados 23.508 estabelecimentos comerciais de alimentos nos entornos analisados, classificados em três grupos. Os pontos comerciais voltados principalmente à venda de ultraprocessados, como lanchonetes, bares, lojas de doces e confeitarias, foram a categoria mais comum no entorno de todos os tipos de equipamentos de transporte avaliados, seguidos por estabelecimentos de oferta mista e locais que vendem predominantemente alimentos in natura ou minimamente processados.

Desigualdade alimentar
Entre os achados, o estudo apontou que, nas áreas próximas às estações de ônibus, a densidade média foi de 23,19 estabelecimentos de ultraprocessados contra 14,94 estabelecimentos de oferta mista e 2,87 pontos de venda de alimentos in natura ou minimamente processados. Nas proximidades das estações de metrô, o padrão se repetiu, com a média de 16,89 estabelecimentos predominantemente voltados aos ultraprocessados, 9,72 de oferta mista e apenas 2,44 que comercializavam principalmente alimentos in natura ou minimamente processados. A densidade média de equipamentos públicos de segurança alimentar e nutricional, como restaurantes populares, mercados municipais e feiras livres, variou entre 0,06 e 0,14 nas áreas analisadas.

A pesquisa também examinou a distribuição dos estabelecimentos segundo a vulnerabilidade social dos territórios a partir do indicador IVS da Prefeitura de Belo Horizonte. Nas áreas próximas às estações rodoviárias, a densidade média de estabelecimentos voltados à venda de ultraprocessados passou de 12,56 em regiões de baixa vulnerabilidade para 51,00 em áreas classificadas como de alta ou muito alta vulnerabilidade. Ao redor de pontos de ônibus, houve variação de 15,74 estabelecimentos em áreas de baixa vulnerabilidade para 17,18 nas áreas mais vulneráveis. A oferta de alimentos in natura ou minimamente processados permaneceu baixa e relativamente estável entre os diferentes níveis de vulnerabilidade.

De acordo com os pesquisadores, os achados do estudo têm importantes implicações para a saúde urbana e as políticas alimentares brasileiras, uma vez que a predominância de estabelecimentos que comercializa alimentos ultraprocessados, juntamente à escassez de equipamentos públicos de segurança alimentar e nutricional, sugere que esses ambientes podem reforçar desigualdades existentes no acesso a alimentos saudáveis e minar os princípios de segurança alimentar e nutricional. “Ambientes alimentares podem contribuir para padrões alimentares pouco saudáveis e, consequentemente, para o aumento do peso das doenças não transmissíveis relacionadas à dieta, especialmente entre populações que enfrentam barreiras socioeconômicas e territoriais para acessar alimentos saudáveis. Além disso, os achados destacam uma importante lacuna de políticas, já que as instalações de transporte público continuam sendo amplamente negligenciadas pelas intervenções no ambiente alimentar, apesar de seu papel estratégico na mobilidade urbana”, enfatiza a professora Larissa.

A coordenadora do estudo conclui dizendo que reconhecer esses locais como cenários estratégicos para políticas alimentares urbanas pode ajudar a reduzir desigualdades e promover ambientes urbanos mais saudáveis. “Garantir o acesso a alimentos saudáveis é central para a segurança alimentar e nutricional e para a promoção da equidade em saúde, especialmente em ambientes urbanos onde a distribuição dos varejistas de alimentos é desigual. Expandir os equipamentos públicos de segurança alimentar e nutricional, mercados de agricultores e outras iniciativas de alimentos saudáveis nesses locais, combinado com medidas regulatórias para limitar a disponibilidade e comercialização de alimentos ultraprocessados, poderia fortalecer ambientes alimentares mais saudáveis e reduzir desigualdades no acesso a alimentos.”

Além da professora Larissa Mendes, também participaram do estudo os pesquisadores Luana Lara Rocha, Letícia Lopes Vieira, Gilmar Junio Moreira Tomaz e Millena Campos, integrantes do GEPPAAS.


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