Nesta quarta-feira (19), a aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPG-Enf) da Escola de Enfermagem da UFMG reuniu docentes, estudantes e pesquisadores para debater as implicações do uso de Inteligência Artificial (IA) na formação, docência e pesquisa em enfermagem. A convidada do evento, professora Ivone Cabral, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e da Escola de Enfermagem Anna Nery/Universidade Federal do Rio de Janeiro, abordou os impactos do uso, regulamentações na pesquisa e técnicas seguras para que as novas tecnologias generativas se tornem auxiliadoras da aprendizagem de maneira ética.
Durante a mesa de abertura, a diretora da Escola de Enfermagem da UFMG, professora Sônia Maria Soares, deu as boas-vindas aos novos estudantes do PPG-Enf e celebrou a oportunidade de discutir o tema em uma perspectiva acadêmica. “Tenho certeza que vocês estão nesse movimento de construção de projetos ousados, que vão contribuir muito com a nossa sociedade, com o que esperamos da nossa universidade: que caminha rumo ao conhecimento, para a sua responsabilidade social e, acima de tudo, para trazer os resultados com ciência e devolver isso à nossa sociedade.”

A sub-coordenadora do PPG-Enf, professora Mariana Santos Felisbino Mendes, destacou sobre o Guia de Inteligência Artificial, lançado pela UFMG no dia 13 deste mês. “O tema desse evento é muito importante para nós, que já estamos discutindo o uso da IA nas nossas pesquisas e aulas ao longo do tempo. A Universidade lançou um guia com orientações e recomendações para o uso da Inteligência Artificial nas atividades acadêmicas e técnicas. E essas recomendações envolvem todos os estudantes, professores, pesquisadores e também os técnicos administrativos. É muito importante que todos visitem esse documento para entender quais são as nossas boas práticas e também para minimizar os riscos que as más práticas com essas ferramentas podem trazer para o nosso dia a dia.”
Implicações para o uso crítico de IA
Ao iniciar a sua palestra, a professora Ivone Cabral afirmou que o uso de inteligência artificial no processo de ensino e aprendizagem não deveria ser proibido, mas regulamentado e monitorado pelas instituições. Para ela, a utilização ética dessa tecnologia envolve fatores como transparência, proteção de dados, verificação de fontes e análise crítica. “A IA não é um atalho cognitivo e não deve ser usada para burlar avaliações ou para formular trabalhos inteiros. A questão é que ela já permeia os ambientes acadêmicos e científicos — não se trata mais de permitir ou proibir, mas de compreender como aplicá-la com responsabilidade profissional e integridade científica. Mais do que acesso à informação, as instituições devem exigir julgamento e segurança para que o uso da IA se torne uma oportunidade formativa.”

A professora também apresentou os marcos regulatórios globais e nacionais dessas tecnologias e deu dicas de uso responsável e seguro tanto para estudantes quanto professores. “Quando uma IA é usada para auxiliar a produção científica, o estudo deve conter uma declaração de uso que apresente a ferramenta utilizada, a finalidade do uso e a responsabilização legal pelo conteúdo produzido. É importante também não inserir dados sensíveis, confidenciais ou identificáveis de pacientes em plataformas de IA para preservação da privacidade.” Segundo ela, o texto gerado em IA não deve ser transcrito na íntegra, mas editado pelo próprio pesquisador com criticidade e uso de referências. “Em se tratando de pesquisa científica, é importante também não confiar nas referências trazidas pela ferramenta, porque muitas vezes podem estar incorretas”, completou.
Para os docentes e orientadores de pesquisas, a professora Ivone recomendou que as IAs sejam aliadas do planejamento de aulas, organização de conteúdos, criação de estudos de caso, elaboração de perguntas e revisão linguística, sem transferir à ferramenta a responsabilidade pela avaliação dos estudantes. “As IAs não são capazes de interpretar textos ou seguir métodos científicos, elas apenas reproduzem palavras que estão presentes em seu algoritmo, muitas vezes vazias de significado no mundo real. Por isso, é importante que os professores não as usem para corrigir avaliações, pois a falta de supervisão humana pode gerar erros conceituais e injustiças.“
Em conclusão, a palestrante enfatizou que as inovações tecnológicas servem para auxiliar processos, mas que a autoria intelectual, o raciocínio lógico e a interpretação são inseparáveis do ser humano. “A inteligência artificial amplia a capacidade de organizar, processar e gerar informações. No entanto, é a inteligência humana que mobiliza a ética, a criatividade, o julgamento crítico e a responsabilidade social. O rigor científico e a integridade acadêmica não são ameaçados pela existência da tecnologia, mas pela terceirização do nosso espírito crítico. A IA constrói pontes, mas é o pesquisador quem escolhe para onde elas levam.”
