A gestão em saúde precisa acompanhar as transformações da sociedade e reconhecer a diversidade das pessoas que acessam o Sistema Único de Saúde (SUS). Essa foi a principal reflexão apresentada pela professora Amanda Márcia dos Santos Reinaldo, do Departamento de Enfermagem Aplicada da Escola de Enfermagem da UFMG, durante a aula magna do programa de Pós-Graduação em Gestão de Serviços de Saúde, no dia 3 de agosto, que abordou o tema “Gestão em Saúde e Interseccionalidades: caminhos para a equidade, o cuidado e a transformação dos serviços”.
Ao longo da conferência, a docente destacou que os desafios contemporâneos da gestão vão muito além da administração de recursos. “Talvez o maior desafio da gestão contemporânea não seja administrar recursos, mas administrar desigualdades”, afirmou. Segundo ela, decisões consideradas estritamente técnicas carregam implicações políticas que podem ampliar ou reduzir as desigualdades no acesso aos serviços de saúde.A professora também provocou uma reflexão sobre a forma como os serviços enxergam as pessoas que procuram atendimento. “Quem é o ‘usuário’ do SUS? Será que as pessoas que procuram os serviços se sentem, se percebem ou se nomeiam ‘usuárias’? O sistema de saúde enxerga quem está diante dele ou apenas trata todos como se fossem iguais?”, questionou.

Durante a exposição, Amanda Reinaldo explicou que a interseccionalidade representa uma ferramenta essencial para compreender como diferentes marcadores sociais, como raça, gênero, classe social, sexualidade, idade, deficiência e outras dimensões da identidade, interagem entre si, produzindo experiências distintas de acesso ao cuidado e de vivência em saúde. Para a professora, não se trata da simples soma de desigualdades, mas de uma interação que potencializa vulnerabilidades e exige respostas mais sensíveis por parte da gestão.
Segundo ela, incorporar uma abordagem interseccional significa reconhecer que as experiências de saúde são moldadas por múltiplos fatores e que um atendimento verdadeiramente equitativo depende da capacidade dos profissionais e gestores de compreender essas complexidades. “Cuidar é produzir encontros reais. Quando alguém chega ao serviço de saúde, chega inteiro, com sua história, seu corpo, suas opressões ou privilégios. Precisamos nos perguntar se estamos preparados para esse encontro. Esse encontro acontece com ‘usuários’ ou com pessoas e suas demandas?”, refletiu.
Um novo olhar para a gestão em saúde
Ao discutir o papel dos gestores, a professora destacou que esse profissional deixou de ocupar apenas uma função administrativa. Atualmente, segundo ela, a gestão exige competências relacionadas à liderança, à mediação, à educação, à negociação e à articulação de redes.
Amanda Reinaldo ressaltou que decisões aparentemente técnicas, como os horários de funcionamento das unidades, as formas de marcação de consultas, a utilização da telemedicina, o fechamento de serviços ou a definição do tempo destinado às consultas, podem produzir impactos diferentes para grupos sociais distintos e, por isso, precisam ser analisadas sob a perspectiva da equidade.

Nesse contexto, apresentou cinco perspectivas que podem orientar uma gestão comprometida com a transformação dos serviços de saúde. A primeira é a valorização das evidências, com decisões fundamentadas em dados e pesquisas. A segunda coloca as pessoas no centro da gestão, compreendendo que o cuidado começa em quem cuida e repercute em quem é cuidado. A terceira enfatiza a equidade, reconhecendo as desigualdades para enfrentá-las. A quarta propõe a presença e a escuta ativa como formas de conhecer as diferentes interseccionalidades presentes na vida das pessoas. Por fim, a quinta perspectiva é a justiça social, que busca garantir direitos para além da oferta de serviços, por meio de uma visão decolonial capaz de repensar as estruturas de poder que sustentam e, ao mesmo tempo, fragilizam os sistemas de saúde.
“A gestão é um ato político”, enfatizou a docente ao defender que as decisões gerenciais devem contribuir para reduzir iniquidades e fortalecer o direito à saúde.
Como proposta para fortalecer a equidade nos serviços de saúde, a professora Amanda apresentou o conceito de “gestão interseccional equitativa”, fundamentado em oito práticas consideradas essenciais: competência cultural; dados individualizados; cuidado personalizado, comunicação inclusiva; força de trabalho diversa; envolvimento comunitário, realização de treinamentos voltados ao enfrentamento de preconceitos e implementação de políticas institucionais de promoção da equidade em saúde.
