No Brasil, os alimentos processados e ultraprocessados ficaram mais baratos, enquanto os considerados saudáveis, como os alimentos in natura e minimamente processados, e os ingredientes culinários registraram alta de preços, sobretudo durante e após a pandemia de Covid-19. É o que aponta um estudo publicado recentemente e coordenado pelo professor Rafael Moreira Claro, do Departamento de Nutrição da Escola de Enfermagem da UFMG, que analisou as tendências e projeções dos preços dos alimentos no país entre 2018 e 2026, bem como as limitações do acesso à alimentação adequada. Com base nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a pesquisa constatou que os preços dos alimentos superaram a renda familiar nominal, reduzindo o acesso a dietas mais saudáveis.
A pesquisadora Thaís Caldeira, do Departamento de Nutrição da Escola de Enfermagem da UFMG, que liderou o estudo, explica que o aumento do preço dos alimentos saudáveis é uma tendência global que intensifica as desigualdades sociais e agrava a fome e a desnutrição. Segundo ela, fatores como as mudanças climáticas, variações econômicas e tensões geopolíticas dificultam a produção suficiente de alimentos, o acesso à educação alimentar e a disponibilidade de alimentos sustentáveis. “A pandemia de COVID-19 reforçou as alterações na dinâmica do sistema agroalimentar, que vem afetando a produção, a distribuição, a disponibilidade, os preços e a qualidade dos alimentos. Essas interrupções agravaram as tendências já existentes de aumento da pobreza e da insegurança alimentar moderada ou grave.”

Entre 2018 e 2024, observou-se comportamento distinto entre os grupos alimentares. O preço médio dos alimentos in natura e minimamente processados, juntamente com os ingredientes culinários processados, manteve-se relativamente estável ao longo do período, passando de R$ 18,9/kg em 2018 para R$ 18,6/kg em 2024. Entretanto, durante a pandemia de Covid-19, esse grupo apresentou expressiva elevação, atingindo o pico de R$ 21,3/kg em 2021, seguida de redução gradual nos anos subsequentes. Em contraste, os alimentos processados e os produtos ultraprocessados apresentaram tendência de queda ao longo da série histórica. O preço médio dos alimentos processados reduziu-se de R$ 26,1/kg em 2018 para R$ 22,6/kg em 2024, enquanto o dos produtos ultraprocessados passou de R$ 22,2/kg para R$ 18,8/kg, correspondendo a uma redução no período completo de até 16%.
Os resultados do estudo também mostraram uma aproximação dos preços médios por quilo entre os grupos analisados. Em 2018, os alimentos ultraprocessados eram mais caros (R$ 22,2) do que os alimentos in natura e minimamente processados (R$ 18,9). Em 2024, porém, os preços dos dois grupos se aproximaram, alcançando R$ 18,8 e R$ 18,6 por quilo, respectivamente. As principais razões apontadas para esse fenômeno incluem a desvalorização cambial, a alta dos preços das commodities, como soja e milho, os eventos climáticos extremos, como secas e enchentes, a desregulamentação da publicidade de produtos ultraprocessados e a elevada carga tributária sobre os alimentos saudáveis.
Para o professor Rafael, os achados reforçam as preocupações com o crescente custo relativo de dietas saudáveis no Brasil e suas potenciais consequências para a segurança alimentar e nutricional. “O aumento dos preços dos alimentos saudáveis, sem um crescimento correspondente da renda, comprometeu a qualidade da dieta e contribuiu para a piora dos indicadores de saúde, dificultando o progresso em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Esses resultados ressaltam a necessidade urgente de medidas estruturais para tornar as dietas sustentáveis financeiramente acessíveis e viáveis para todos os grupos sociais”, disse.
Os pesquisadores também afirmam que programas e infraestruturas complementares, como bancos de alimentos, cozinhas comunitárias e restaurantes populares, são medidas importantes a serem adotadas, uma vez que promovem o acesso a alimentos saudáveis para populações vulneráveis, reduzem o desperdício de alimentos, geram empregos, ampliam a renda e fortalecem a coordenação com outras políticas públicas sociais.A partir dos resultados apresentados, os pesquisadores destacam que o acesso à alimentação adequada é um direito humano e depende da formulação de políticas públicas robustas que tornem os alimentos saudáveis mais acessíveis e competitivos em relação aos produtos ultraprocessados. “Diante do atual contexto de incerteza econômica, mudanças climáticas e risco de futuras crises sanitárias e geopolíticas, o monitoramento e a previsão contínuos dos preços dos alimentos são essenciais para subsidiar políticas públicas oportunas que promovam a segurança alimentar e nutricional. Essas políticas incluem subsídios para frutas, verduras e outros alimentos frescos, bem como a tributação de produtos ultraprocessados com base em seus impactos negativos à saúde. Além disso, o apoio à agricultura familiar e o fortalecimento dos sistemas alimentares locais são fundamentais para garantir o fornecimento de alimentos frescos, culturalmente adequados e ambientalmente sustentáveis”, destaca Thaís Caldeira.
O estudo foi desenvolvido pelo professor Rafael Moreira Claro e pelas pesquisadoras Thaís Cristina Marquezine Caldeira e Bruna Barbosa Furtado, da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); Ramon Torres, da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG; e pelas pesquisadoras Ana Maria Thomaz Maya Martins e Laís Amaral Mais, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).
