Em Belo Horizonte, a tecnologia está ajudando a desvendar hábitos de consumo de bebidas alcoólicas. Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais usaram inteligência artificial para criar populações sintéticas — modelos virtuais que simulam, de forma anônima e estatisticamente fiel, as características e comportamentos da população real. Com isso, foi possível revelar que áreas consideradas menos vulneráveis apresentam maior prevalência de consumo abusivo, caracterizado pela ingestão de quatro ou mais doses em uma única ocasião para mulheres e cinco ou mais para homens. Essa ferramenta inovadora busca entender padrões de saúde e orientar políticas públicas com mais precisão.
O estudo “Uso de população sintética para estimativas de consumo abusivo de bebidas alcoólicas em pequenas áreas”, coordenado pela professora Deborah Malta, do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da UFMG, analisou variáveis sociodemográficas e de estilo de vida de residentes da capital mineira para identificar nove agrupamentos de vulnerabilidade com características semelhantes.
A pesquisa utilizou dados referentes aos anos de 2006 a 2018 do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), um sistema de entrevistas telefônicas anuais que monitoram hábitos de saúde e doenças de residentes das capitais brasileiras. Contudo, a professora Deborah explica que a dependência de linhas fixas para a realização do censo limita a representatividade em grupos mais vulneráveis, como populações de baixa renda e moradores de áreas periféricas, o que exige a implementação de metodologias alternativas para aumentar a precisão em pequenas áreas.
De acordo com os pesquisadores, o uso de populações sintéticas permite a produção de estimativas válidas para pequenas áreas, onde os altos custos e desafios na coleta de dados inviabilizam o avanço de pesquisas. “Inovações em inteligência artificial, como as redes generativas adversariais condicionais (cGAN), vêm sendo aplicadas para gerar populações sintéticas realistas, permitindo simulações que ampliam a capacidade de análise em contextos em que os dados reais são escassos, confidenciais ou de difícil obtenção”, sinalizou a professora Deborah. Ela acrescenta que a utilização de dados sintéticos contribui para maior estabilidade das estimativas e menor variabilidade entre períodos.
Consumo abusivo de bebidas alcoólicas
Em todos os períodos analisados, o estudo demonstrou que as prevalências de consumo abusivo de bebidas alcoólicas foram consistentemente mais elevadas nos clusters de menor vulnerabilidade, tanto nos dados reais quanto nos sintéticos. De 2006 a 2009, 23,3% dos cidadãos com menores vulnerabilidades socioeconômicas consumiram álcool de forma abusiva, em comparação a 14,3% entre os mais vulneráveis. Entre 2014 a 2018, os números foram 24% e 15,2%, respectivamente, no comparativo entre os mesmos grupos.
A professora Deborah esclarece que o maior consumo de bebidas alcoólicas em áreas menos vulneráveis pode ser explicado por fatores como renda, localização geográfica e hábitos de consumo. “Em contextos de maior renda, há não apenas maior disponibilidade financeira para a aquisição de bebidas alcoólicas, mas também maior oferta de estabelecimentos comerciais e espaços de socialização que estimulam o consumo. Além disso, aspectos culturais e comportamentais, como a valorização de práticas sociais vinculadas ao uso de bebidas alcoólicas, contribuem para reforçar esse padrão.”
O estudo constata, ainda, que a menor ocorrência de consumo abusivo de bebidas alcoólicas em áreas de maior vulnerabilidade não sinaliza uma melhoria, uma vez que essas populações estão mais propensas a enfrentar problemas associados ao consumo de álcool. “Por mais que as áreas mais vulneráveis apresentem menor prevalência relatada de consumo abusivo de bebidas alcoólicas, elas estão mais expostas a agravos decorrentes do consumo devido à menor disponibilidade de serviços de saúde e suporte social”, afirma a professora Deborah.
Para a professora, a utilização de populações sintéticas em estudos representa um avanço metodológico para a diminuição de limitações de inquéritos populacionais, mas depende da qualidade dos dados reais e requer rigor ético e científico. “Populações sintéticas representam um recurso inovador para vigilância em saúde, mas seu uso deve ser acompanhado de avaliações críticas, validação contínua e reflexão ética. Essa inovação pode apoiar a formulação de políticas públicas mais precisas e equitativas, desde que utilizada de forma responsável.”
Além da professora Deborah, o artigo é assinado pelos pesquisadores da UFMG: Crizian Saar Gomes, Regina Tomie Ivata Bernal, Celso Renato França Júnior, Samuel Norberto Alves, Juliana Bottoni de Souza, Flora Vitória Serena Oliveira Baldi, Marcos André Gonçalves e Jussara Marques Almeida; e a pesquisadora Larissa Fortunato Araújo da Universidade Federal do Ceará.
