Nos dias 6 e 7 de maio, cerca de 600 profissionais, pesquisadores e gestores de saúde de 20 estados brasileiros se reuniram no auditório do Centro de Atividades Didáticas 1 (CAD 1), no campus Pampulha, para o “II Congresso brasileiro defesa da vacinação: a reconquista das altas coberturas vacinais”. Os objetivos foram apresentar o cenário da América Latina, brasileiro e mineiro sobre a cobertura vacinal; discutir sobre a classificação de risco para transmissão de doenças preveníveis por vacinas e propiciar uma reflexão com a comunidade cientifica sobre estratégias para melhorar a cobertura vacinal.
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Mesa de abertura do evento. Foto: Ricardo Fonseca
Na mesa de abertura, a enfermeira e consultora nacional em imunização do escritório da Opas no Brasil, Francielli Fontana Sutile Tardetti afirmou que a desinformação e as fake news estão entre as 10 ameaças à saúde pública que precisam ser combatidas para a reconquista das altas coberturas vacinais e a proteção da população dos 35 países-membros da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas).
Segundo Francielli Tardetti, os países das Américas têm muitos desafios e fragilidades nos sistemas públicos de saúde, mas também motivos para comemorar, como a primeira região a erradicar a varíola, em 1971, a inclusão da vacinação de adolescentes contra o HPV por 32 dos 35 países-membros da Opas e o controle do sarampo no Brasil, com a certificação de país livre da doença, em 2024.
Estratégias diferenciadas
A gestora da Opas destacou a necessidade de campanhas de comunicação embasadas em informações confiáveis e científicas, o monitoramento e a avaliação contínuos dos processos de trabalho dos serviços de saúde, a criação de estratégias diferenciadas por faixa etária, parceria intersetoriais e divulgação de experiências exitosas.
Para o médico e diretor do Departamento do Programa Nacional de Imunizações (DPNI) do Ministério da Saúde, Eder Gatti Fernandes, as estratégias diferenciadas, como vacinação extramuros nas creches, escolas e presídios, por exemplo, são fundamentais para facilitar o acesso da população às vacinas. “Sabemos que as fake news e o negacionismo são fatores impactantes na baixa vacinação e precisam ser combatidos com informação, mas também precisamos garantir o estoque de vacinas e uma estrutura logística para fazê-las chegar ao braço da população”.
Eder Gatti Fernandes, ao lado da pró-reitora de Pós-graduação, Isabela Pordeus
Foto: Jebs Lima | UFMG
O orçamento público, na sua opinião, é um dos grandes desafios, em razão da dependência que o país tem da importação dos imunizantes. “Somos reféns da variação do dólar. Além disso, as tecnologias incorporadas às vacinas as encarecem, o que exige que nós, em conjunto com os gestores municipais e estaduais, negociemos com os laboratórios”, justificou Fernandes.
Eder Gatti também apresentou as estratégias do Ministério da Saúde para manutenção do Brasil livre do sarampo, diante da ameaça dos mais de 2,3 mil casos e quatro óbitos já registrados neste ano nos países membros da Opas. “Estamos com campanha de vacinação em dez municípios fluminenses, na Região Metropolitana de Belém e em dois estados do Sul do país. Não podemos impedir que uma pessoa não vacinada entre no Brasil. Por isso, temos que responder aos casos inevitáveis, fazer busca ativa e promover vacinação em áreas estratégicas”, afirmou.
Quanto à produção de doses suficientes para a cobertura vacinal dos brasileiros contra doenças como a dengue, o diretor do PNDI afirmou que o Ministério da Saúde está em negociação com laboratório chileno para produção de vacina de dose única, com tecnologia brasileira, para cobertura da faixa etária de 2 a 59 anos. “Também estamos em negociação sobre a vacina contra a chikungunya, que será utilizada como estratégia específica. Além disso, uma avaliação criteriosa vem sendo feita pelo PNI sobre doenças respiratórias que atingem especialmente gestantes e bebês, com maior risco de mortalidade, assim como para hepatite e coqueluche”.
Parceria de sucesso
Na avaliação do subsecretário de Vigilância em Saúde da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, Eduardo Campos Prosdocimi, a parceria com a UFMG, desde 2021, por meio do Opesp da Escola de Enfermagem, tem sido fundamental para ações estratégicas, como o investimento em 252 vacimóveis (vans adaptadas) que ajudam os municípios em campanhas fora dos centros de saúde e iniciativas de multivacinação direcionadas por faixa etária.
Para o presidente do Conselho de Secretarias Municipais de Saúde de Minas Gerais, Edivaldo Farias da Silva Filho, “a parceria com a pesquisa realizada na Universidade vem contribuindo para a reconquista da vacinação no estado, porque dá suporte às políticas públicas estratégicas”.
A diretora da Escola de Enfermagem, Sônia Maria Soares, reforçou o compromisso da Universidade, nos seus quase 100 anos, e da Escola de Enfermagem, com 92 anos, “com a vida, a prevenção e o futuro”. Ela destacou o papel dos profissionais da enfermagem, “que colocam a vacina no braço da população, acolhem e levam informação confiável para as pessoas nas salas de vacinação dos municípios”. E acrescentou: “vacinação não é só um gesto técnico, mas um ato de responsabilidade social, que exige parceria com governos e a comunicação”.
Professora Fernanda Penido, líder do OPESV. Foto: Ricardo Fonseca
A líder do Observatório de Pesquisa e Estudos em Vacinação da Escola de Enfermagem da UFMG (Opesv) e presidenta do Congresso, professora Fernanda Penido Matozinhos, reiterou a crescente participação dos profissionais e gestores nesse compromisso, “que tem início, mas não tem fim”. Ela pontuou a sistematização científica do microplanejamento, a oferta de cursos para técnicos, médicos, enfermeiros e agentes de saúde como conquista da parceria, que se estenderá a todos os municípios de Minas Gerais.
A parceria se deu com a pesquisa pioneira Estratégias para o aumento de coberturas vacinais em crianças menores de dois anos e adolescentes no estado de Minas Gerais, Brasil: uma pesquisa-ação, coordenada por Fernanda Matozinhos. Os resultados do estudo, que confirma o crescimento da cobertura vacinal entre crianças, estão disponíveis em matéria publicada no site da Escola de Enfermagem. “A comunicação científica, a reorganização do trabalho e o monitoramento são essenciais para o sucesso da reconquista da alta cobertura vacinal”, acrescentou a professora.
Participaram da mesa de abertura, realizada na manhã de terça-feira, dia 6, a pró-reitora de Pós-graduação, professora Isabela Pordeus, representando a reitora Sandra Regina Goulart Almeida, a subsecretária de Saúde de Belo Horizonte, Taísa Drumond Martins, a presidenta do Controle Social da PBH, Lourdes Machado, e a presidenta da Sociedade Brasileira de Imunização, Mônica Levi.
Mesa de abertura do evento. Foto: Rosânia Felipe
Revista e logomarca
Durante o congresso, foi lançada a nova logomarca do Opesv e o primeiro volume da revista Experiências exitosas, que reúne relatos de experiências de sucesso de dezenas de municípios mineiros. Todos alcançaram as metas de cobertura vacinal. “A intenção é de que os relatos das experiências de sucesso registrados na revista sirvam de inspiração às equipes intersetoriais de Imunização, Atenção Primária e Vigilância Epidemiológica, para que possam aprimorar os processos de trabalho em imunização, aumentar as coberturas vacinais e, por conseguinte, reduzir o risco de transmissão de doenças preveníveis por vacinas”, relatou a professora Fernanda Penido.
Parte dos representantes dos municípios cujas experiências foram relatadas no volume 1 da revista. Foto: Ricardo Fonseca
Programação extensa
A primeira palestra foi uma apresentação do “Cenário de cobertura vacinal nos ciclos de vida – América Latina, Brasil e Minas Gerais”, com a participação do subsecretário de Vigilância em Saúde da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, Eduardo Campos Prosdocimi, do médico e diretor do Departamento do Programa Nacional de Imunizações (DPNI) do Ministério da Saúde, Eder Gatti Fernandes, e da enfermeira e consultora nacional em imunização do Escritório da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) no Brasil, Francielli Fontana Sutile Tardetti.
Além disso, houve discussões sobre o calendário público x privado, com a médica pediatra e presidente da SBIm Mônica Levi; atualização do Manual de Normas e Procedimentos para Vacinação, a Coordenadora Geral de Incorporação Científica e Imunização da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde, Ana Catarina de Melo Araújo. Foi realizada também, no período da tarde, uma mesa de apresentação de quatro experiências exitosas nacionais para aumento da cobertura vacinal ue foram premiadas: “A comunicação social como instrumento de posicionamento estratégico para a potencialização do vínculo entre a vacinação e a comunidade”, de primavera do Leste/MT; “Retomada do cartão controle nas visitas domiciliares dos agentes comunitários de saúde” da da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e Feira de Santana-BA; “Reorganização do sistema de informação próprio visando ao aumento das coberturas vacinais”, “Reorganização do sistema de informação próprio visando ao aumento das coberturas vacinais”, “Reorganização do sistema de informação próprio visando ao aumento das coberturas vacinais”, de Ipatinga-MG e “Movimento Vacina Campo Verde: Corrida do Zé Gotinha”, de Campo Verde/MT.
O enfermeiro Rafael Leone de Paula recebeu a premiação experiência exitosa de Ipatinga. Foto: Ricardo Fonseca
O segundo dia do congresso foi marcado por diversas atividades. A mesa intersetorial “Vigilância, Atenção Primária à Saúde e Educação – para o aumento das coberturas vacinais” contou com a participação da coordenadora Geral de Equidade e Determinantes Sociais em Saúde do Ministério da Saúde e Coordenadora Nacional do Programa Saúde na Escola do Ministério da Saúde, Kátia Maria Barreto Souto. Ela apresentou o Programa Saúde na Escola (PSE).
Ela explicou que o PSE é uma política pública fundamental que integra saúde e educação para promover o bem- estar desenvolvimento integral dos estudantes. Tem como pilares a participação social e o protagonismo juvenil, que incentiva crianças, adolescentes e jovens a se envolverem ativamente nos processos educativos para promoção de saúde e cidadania, assumindo o papel de agentes transformadores em suas comunidades escolares e territoriais. “Apresentei no congresso a potência desse Programa e essa articulação intersetorial, interfederativa e com participação social para o desafio de aumentarmos a vacinação no nosso país, resgatarmos o nosso orgulho do nosso Programa Nacional de Imunização e, ao mesmo tempo, reconhecemos que o ambiente escolar é um ambiente socialmente participativo da comunidade. Então a função social da escola dialoga muito com ações de promoção à saúde, que também resgata a vacinação como ciência”, enfatizou.
Mesa intersetorial. Foto: Rosânia Felipe
No que diz respeito à importância do congresso, Kátia ressaltou que é necessário e estratégico. “Fiquei muito feliz e honrada quando recebi o convite para estar neste evento que reúne não só as experiências exitosas, mas gestores e profissionais da saúde. É fundamental realizar um congresso de vacinação no momento em que você tem que enfrentar o negacionismo e, portanto, fazer isso mostrando para a sociedade a importância da vacinação como elemento estruturante das nossas vidas”, concluiu.
Experiências exitosas dos municípios
Os enfermeiros José Elisomar Silva de Santana e Franciele Delfina Silva e a bióloga Nathalia Cristina Soares Franceschi apresentaram as experiências exitosas dos municípios de São Paulo, Patos de Minas e da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.
José Eliomar apresentou a experiência exitosa sobre o uso da tecnologia na imunização e envio de mensagens de texto para o celular dos usuários, lembrando da data de retorno para receber uma vacina próxima ou então lembrando que ele está atrasado se foi na data agendada. “Realizamos esse trabalho desde 2023, já foram aproximadamente 4 milhões e meio de mensagens enviadas e isso é um dos fatores que têm impactado positivamente na cobertura vacinal da capital, claro, aliado a outros trabalhos e apoios. Este prêmio vem reforçar que estamos no caminho certo, para fortalecer ainda mais a ideia e melhorar, que é o que queremos. Muito provavelmente, no próximo ano, essa mensagem já não será mais por SMS e sim por WhatsApp, já estamos articulando para acontecer.
Franciele destacou que o município de Patos de Minas estava com baixas coberturas, baixa adesão de vacinação em adolescentes e, por meio do Programa Saúde na Escola, resolveram estruturar e organizar uma estratégia para realizar vacinação em todas as escolas públicas e privadas abrangendo o público de 9 a 14 anos. Dessa forma, começamos a articular, junto com as escolas, os diretores, a questão da educação para poder conseguir abrir as portas das escolas para realizarmos a vacinação. Fizemos uma intervenção juntamente com os diretores das escolas e superintendência e, posteriormente, as equipes fizeram contato e agendamento da vacina na escola. Acreditamos que com a continuidade das estratégias vamos conseguir atingir 90% da vacinação”.
Nathália apresentou sobre o tema “Avanços, Desafios e Perspectivas no aumento das coberturas vacinais no Estado de São Paulo”. Ela trouxe a experiência Chama o VAR, uma estratégia de comunicação em consonância com o Vacina100Dúvidas, uma plataforma digital com as cem perguntas mais buscadas nas ferramentas da internet em relação à vacinação. “Essas dúvidas foram compiladas, respondidas e colocadas nesse portal para que toda a população tenha acesso às respostas adequadas às suas dúvidas. O Chama o VAR vem de encontro, fazendo alusão ao próprio futebol. Quando o árbitro tem uma dúvida, o que ele faz? Chama o VAR. Então fazendo o paralelo da questão da vacinação, se a população tem uma dúvida, chama o VAR, mas é o Varcina que é uma cabine que fica um profissional de saúde em locais estratégicos para tirar dúvidas da população em relação à imunização, levando a informação adequada e correta à população.
Ela enfatizou a importância da participação no congresso e do reconhecimento da experiência exitosa. “É de extrema importância para o estado de São Paulo porque é um trabalho de dedicação de todos os profissionais de saúde do estado voltados à vacinação, é uma grande honra participar desse evento e ganhar esse prêmio de experiência exitosa para o nosso estado”, finalizou.
Além disso, foram realizadas palestras sobre “Atualização de sistemas de informação em saúde”, com o consultor técnico do Departamento do Programa Nacional de imunizações do ministério da Saúde, Carlos Edson Hott; “Anvisa: aprovação de vacina para uso da população”, com a Especialista em Regulação e Vigilância Sanitária na Agência Nacional de Saúde (ANVISA), Brenda Gomes Valente e “CT-Vacinas e a inovação em vacinas”, com o professor da Universidade Federal de Minas Gerais, Diretor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Vacinas e do Centro de Tecnologia de Vacinas da UFMG, Ricardo Tostes Gazzinelli.
Ricardo Gazzinelli, Brenda Gomes e Filipe Laguardia, mediando a mesa.Foto: Rosânia Felipe
Luciano Alves dos Santos, especialista em Política e Gestão da Saúde na Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, parabenizou a organização do evento. “Esse congresso será muito importante para que as coberturas voltem a crescer e permaneçam subindo aí. Quando chegar na regional de saúde, vou fazer uma reunião com os nossos municípios e repassar as novidades e as propostas que aprendi aqui”.
(Com Centro de Comunicação da UFMG)
