Projeto “Tecer Redes de Cuidado na UFMG” promove evento sobre saúde materna e infantil na Terra Indígena Yanomami


No dia dia 24 de maio, projeto “Tecer Redes de Cuidado na UFMG”, coordenado pela professora Érica Dumont Pena, que pesquisa e constrói fortalecimento das ações de saúde junto aos povos Yanomami e Ye’kwana, promoveu um evento com o objetivo de articular pesquisadores, professores e estudantes da UFMG para discutir questões dos projetos e apresentar trabalhos desenvolvidos. A atividade faz parte do Abril Indígena, que vem se consolidando no calendário oficial da instituição dentro da perspectiva de uma universidade que também se apresenta como território indígena.

A mesa de abertura contou com a participação do Pró-reitor de extensão da UFMG, Glaucinei Rodrigues Corrêa; da diretora da Escola de Enfermagem da UFMG, professora Sônia Maria Soares, a coordenadora do projeto, professora Érica Dumont; da representante do Ministério dos Povos Indígenas, Clarisse Jabour; Coordenadora do Programa de Extensão em Educação, Saúde e Direitos Humanos Yanomami e Ye’kwana da UFMG, professora Ana Maria Rabelo Gomes; representante da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), Rachel Geber Corrêa; chefe do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da EEUFMG, professora Giselle Lima, e da representante do Hospital Sofia Feldman, Érika da Silva Dittz.

Mesa de abertura do evento

Durante as boas-vindas, a professora Érica reforçou o comprometimento com o projeto, a importância dele para os povos indígenas e o apoio da Universidade. Ela destacou também que o evento aconteceu neste mês em função da luta dos povos indígenas. “Sabemos que é importante demarcar também esse espaço Universidade, indigenizar esse espaço é fundamental para ampliação dos mundos e fortalecimento do conhecimento, da educação, da saúde”.

A diretora Sônia Soares parabenizou o projeto e reafirmou o compromisso da Escola de Enfermagem com a sociedade e extensão. “A extensão é um espelho de muito do que fazemos, da nossa parceria com a sociedade com o desenvolvimento das nossas ações de responsabilidade social que a Escola abraça com muito comprometimento”, destacou a diretora Sônia.

O Pró-reitor de extensão Glaucinei Corrêa destacou que a extensão está agora em outro patamar. “Estamos vivenciando uma mudança de cultura. Ela é uma ponte que faz a ligação da universidade com a comunidade e complementa a formação dos estudantes com práticas reais, e esse projeto é um exemplo disso”.

Este é um evento muito importante. O Ministério dos Povos Indígenas tem o papel de fazer a articulação entre todos os órgãos e parceiros que estão participando deste projeto. Desejamos que essas ações sejam incoporadas na prática das políticas públicas para o futuro, para que as mulheres tenham saúde e consigam viver bem”, destacou Clarisse Jabour.

Mesas-redondas
As discussões se iniciaram com uma introdução da professora Érica Dumont a mesa-redonda “Cosmopolíticas do cuidado materno-infantil na terra indígena Yanomami”. Em seguida, Marcelo Moura, antropólogo e doutorando em Antropologia pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro, e Manuela Otero, geógrafa e assessora do Instituto Socioambiental, apresentaram o contexto e um panorama da Terra Indígena Yanomami. “Dentro do espaço existem 16 dialetos e as variações das línguas se refletem na variação dos saberes”, ressaltou Marcelo.

Marciane Ye’kwana, bolsista indígena do projeto, residente da Terra Indígena Yanomami e estudante de Antropologia da UFMG, e Karenina Andrade, professora adjunta do Departamento de Antropologia e Arqueologia da UFMG, abordaram a diversidade e conhecimento do povo Yanomami, evidenciando as tensões no diálogo entre os sistemas de conhecimento indígenas e não indígenas. “Historicamente ficou a cargo das pessoas indígenas fazer a articulação entre os conhecimentos porque o sistema brasileiro se recusou a fazer esse movimento”, completou Karenina.

Mesa-redonda “Cosmopolíticas do cuidado materno-infantil na terra indígena Yanomami”

A professora da Escola de Enfermagem da UFMG Deborah Malta, médica especialista em saúde coletiva, apresentou um compilado de dados da Terra Yanomami referentes ao crescimento da população, óbitos da população geral, óbitos de crianças de até um ano e peso das crianças no nascimento entre os anos de 2020 a 2024, com o objetivo de descrever o perfil demográfico dos indígenas e ter um melhor conhecimento dos dados epidemiológicos.

A mesa sobre “Desafios e possibilidades na construção de um guia de pré-natal para a Terra Indígena Yanomami”, contou com a apresentação da estudante de enfermagem Bruna Pataxó que salientou sobre a importância de se discutir a saúde indígena, principalmente no ambiente da UFMG, reconhecido por receber diversos estudantes indígenas.

A professora Érica Dumont falou sobre a necessidade de um protocolo de pré-natal e de formação de profissionais em território capaz de dar conta das particularidades e de discussões amplas do campo da obstetrícia. “Quase toda gravidez na Terra Indígena Yanomami seria classificada como de alto risco. É inviável e não desejamos encaminhar essas pessoas para cuidados na cidade ondde pofdem acessar atenção secundária e terciária, por isso, é importante construir um protocolo e um atendimento que dê conta da saúde da gestação de alto risco dentro da floresta e que possa analisar com calma o conceito de risco, inclusive pensando a colonialidade deste”, explicou.

Discussão sobre “Desafios e possibilidades na construção de um guia de pré-natal para a Terra Indígena Yanomami”

Maria Christina Barra, antropóloga, fisioterapeuta e sanitarista, discorreu sobre os desafios da atenção à saúde na Terra Indígena Yanomami e o cuidado sensível e adequado às diferentes regiões. Ela explicou que para apresentar a região no guia foi realizada uma estratificação dos fatores que impactam a saúde das diferentes regiões em um mapa com ícones de intensidade da malária, aqueles locais atingidos pelo garimpo, fluxos para centros urbanos e alimentação disponível.

O médico especialista em ginecologia e obstetrícia e coordenador do serviço de pré-natal de alto risco do hospital Sofia Feldman, Edson Borges, trata do problema da continuidade entre pré-natal e parto. Ele falou sobre o risco da remoção dos indígenas de seu território, com ênfase no cálculo de acordo com a importância da ameaça, potencial de ocorrência e consequências, para determinar sua necessidade. “Um grande desafio é parametrizar, ou seja, construir ferramentas para descobrir quais mulheres correm mais risco”.

Paula Lobato e Felipe Carnevalli, fundadores de Cosmopolíticas Editoriais, um estúdio dedicado a desenvolver projetos em aliança com comunidades tradicionais, povos originários, instituições culturais e universidades, explicaram como o design do guia de pré-natal, a linguagem visual e o projeto editorial e gráfico dos materiais do projeto são um processo cuidadoso de tradução e mediação entre mundos. “Se o processo tradicional condensa os saberes a indicadores, temos tentado trazer alternativas para que esses saberes não sejam capturados por modos de diagramação que não se atentam às particularidades desse saber”, evidenciou Paula.


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