Estudantes universitários apresentam elevada vulnerabilidade para uso de medicamentos psicofármacos e transtornos mentais, como a ansiedade e depressão. As mudanças do estilo de vida, carga horária elevada dos estudos, excesso de atividades, a distância geográfica dos familiares para alguns jovens, as cobranças da sociedade, da instituição e do próprio estudante, podem resultar em estresse, sintomatologia ansiosa e depressiva, entre outros transtornos. Estudo publicado recentemente por pesquisadores da Escola de Enfermagem da UFMG e da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo revelou elevada prevalência de sintomas de ansiedade, de depressão e consumo de psicofármacos, substâncias que agem no sistema nervoso central, influenciando o comportamento, as emoções, as percepções e os pensamentos, entre estudantes de graduação.
O professor Assis do Carmo Pereira Júnior, do Departamento de Enfermagem Básica da Escola de Enfermagem da UFMG, explicou que a pesquisa foi realizada com cerca de 900 estudantes de diversos cursos de uma universidade federal pública do interior do estado de Minas Gerais, por meio de formulário eletrônico e utilizou como instrumentos: questionário sobre dados sociodemográficos, econômicos e uso de psicofármacos e mini entrevista neuropsiquiátrica internacional (Mini International Neuropsychiatric Interview – MINI). A maioria da amostra era do sexo feminino (66.4%), com média de idade variando de 18 a 69 anos, branca (63%), heterossexual (68.1%), solteiros (88.4%), sem filhos (92.6%), mora com a família (77.8%), sem renda individual (57.7%), com dedicação exclusiva aos estudos (52.3%) e se declararam sem religião (42.3%).
Verificou-se que 210 (23.3%) estudantes afirmaram fazer uso de psicofármacos. Dentre os usuários, 105 (50%) referiram usar ao menos um psicofármaco e 70 (33.3%) usavam dois psicofármacos. “Chamou a atenção que 16.7% dos participantes mencionaram usar três ou mais psicofármacos. Dentre os psicofármacos utilizados pelos estudantes, o antidepressivo foi o mais citado 193 (21.4%), seguidos dos anticonvulsivantes/ estabilizadores do humor 71 (7.8%). O ansiolítico foi citado por 48 (5.3%) estudantes, o uso de antipsicótico por 22 (2.4%), os psicoestimulantes e nootrópicos foram citados por 8 (0.8%) estudantes”.
Os resultados do estudo apontaram também que 122 (35%) dos participantes estavam em uso de psicofármacos há menos de um ano, grande parte dos estudantes estava em uso destes medicamentos por período de um a dois anos e que 79 (23%) mencionaram fazer uso de psicofármacos por mais de dois anos. “É importante destacar que 74% das prescrições de psicofármacos foram provenientes de médicos psiquiatras, 6% de Neurologistas e 12% dos participantes não informaram o médico prescritor”, enfatizou o professor.Ele enfatiza, ainda, que o uso de medicamentos no ambiente acadêmico, incluindo os psicofármacos, vem sendo cada vez mais comum, por ser um local de extensa carga de trabalho e estudos, com potencial para adoecimento nos discentes e docentes acadêmicos. “Destaca-se que nossos resultados são superiores aos identificados na literatura, que indicaram prevalências entre 10% e 19.7% do uso de psicofármacos por essa população. A literatura mostra que a procura dos psicofármacos está frequentemente associada ao alívio ou enfrentamento de problemas psíquicos, como ansiedade, depressão, estresse e dores físicas”, pontuou Assis.
Em relação aos fatores associados ao uso de psicofármacos, o professor ressaltou que as maiores chances de uso dos medicamentos então entre estudantes com filhos, que ingressaram por meio de vagas atribuídas por cotas, dos cursos de Linguística, Letras e Artes e Ciências Agrárias, que realizaram o trancamento, com dificuldades emocionais, que referiram uso de substâncias para modificar o humor, apresentaram reações desagradáveis na falta da substância e que mencionaram continuar o uso da substância mesmo na presença dessas reações. Entre os estudantes que cursam a universidade no período diurno, houve menores chances de utilização desses medicamentos.
“Constatou-se maiores chances de consumo de psicofármacos entre os estudantes com filhos. Uma possível explicação para esse achado pode ser a potencial sobrecarga advinda da realização de atividades simultâneas, quais sejam atividades relacionadas à vida acadêmica e o cuidado com filho(os). Nessa direção, vale lembrar que a maioria dos participantes deste estudo é do sexo feminino. Estudo aponta que ser mãe e estudante resulta em inúmeros afazeres com influência direta e indireta, de forma positiva e negativa, na vida social, afetiva, familiar e educacional. Para conciliar os papéis de mãe e estudante, enfrentam grandes dificuldades que podem resultar em ausência nas aulas, trancamento de curso e, até mesmo, no abandono dos estudos”, ressaltou Assis.
Outro achado importante do estudo, foi que estudantes que ingressaram por cotas também tiveram maiores chances de utilização de psicofármacos, bem como os estudantes do período integral. “Tanto para cotistas quanto para estudantes do período integral, a busca pelo uso de psicofármacos pode estar relacionada, entre outros aspectos, às condições econômicas. A literatura mostra que a baixa renda familiar pode desencadear preocupações nos estudantes, atrapalhando o desempenho acadêmico além de gerar sofrimento mental, podendo resultar no uso de psicofármacos. Vale ressaltar que estudantes do período integral apresentam maior dificuldade para aquisição de trabalho extra-acadêmico, com limitações para obtenção de renda, resultando em dificuldade econômica para alguns estudantes”, enfatizou o pesquisador.
Sintomas depressivos e de ansiedade
A prevalência de sintomas de depressão e de ansiedade entre os estudantes de graduação foi de 55.3% e 86.5%, respectivamente. No que se refere aos sintomas depressivos o resultado identificado está dentro do intervalo de prevalência de achados da literatura que variaram de 22.3% a 58.5%. A prevalência de sintomas de ansiedade foi superior aos achados anteriores, cujo intervalo de prevalência variou de 15.8% a 62.9%, dependendo do tipo de instrumento utilizado.
Ainda de acordo com o estudo, as maiores chances de sintomas depressivos estão em estudantes matriculados no primeiro ano dos cursos de graduação do que aqueles matriculados do 5º ao 7º ano dos seus respectivos cursos. Alunos matriculados do 2º ao 4º ano tiveram menor chance de apresentar sintomas depressivos comparados aos alunos do 5º ao 7º ano de seus cursos.
O professor Assis pontua que houve maiores chances de sintomas depressivos entre os alunos que afirmaram que trocariam de curso, que realizaram o trancamento, que apresentam dificuldades que interferem na vida e contexto acadêmico, com problemas emocionais, que referiram o uso de medicamentos psicofármacos. Houve, também, aumento das chances de sintomas depressivos entre aqueles que referiram utilizar ansiolíticos, antidepressivos e anticonvulsivantes/estabilizadores de humor. “Constatou-se maiores chances de sintomas depressivos nos estudantes em uso substâncias para modificar o humor , que informaram sentir reações desagradáveis quando diminuíam ou cessavam o uso de substâncias para alterar o humor e entre aqueles que continuar com o uso das substâncias, mesmo na presença de reações desagradáveis”.
Ainda de acordo com o estudo, a maioria dos estudantes apresentava sintomas de ansiedade 780 (86.5%), a maioria deles ingressou por meio de vagas destinadas por cotas, dos cursos de Ciências Agrárias, Letras, Artes e Linguística, seguido daqueles da área de Humanas, que estão em cursos noturnos. Entre os alunos matriculados em cursos que não correspondiam à primeira opção e entre aqueles que trocariam de curso, que referiram dificuldades que interferem no contexto acadêmico, dificuldades emocionais que interferem na vida acadêmica, usuários e que referiram reações desagradáveis na falta da substância.
O estudo concluiu que atualmente as instituições de ensino superior contam com órgãos destinados ao acompanhamento psicopedagógico dos estudantes e que, para além disso, é essencial desenvolver intervenções como acompanhamento e apoio aos alunos, aconselhamento estudantil, workshop de programa de formação em gestão da ansiedade, para detectar, gerir, acompanhar e encaminhar alunos em risco nas instituições de ensino superior.
