Em editorial, professoras destacam que pacientes cardíacos têm dificuldade em manter uma dieta saudável


(Editorial de autoria das professoras Camila Kümmel Duarte, do Departamento de Nutrição da Escola de Enfermagem da UFMG e Gabriela Ghisi, do Departamento de Fisioterapia da Universidade de Toronto, publicado no site The Conversation Canadá)

A doença cardiovascular continua sendo uma das principais causas de morte em todo o mundo, e seu manejo eficaz exige mais do que apenas intervenção médica: o que você come desempenha um papel crucial na saúde do coração. 

Para pacientes cardíacos, seguir as recomendações nutricionais não é apenas uma sugestão; é uma questão de vida ou morte. Uma dieta saudável para o coração pode ajudar a controlar fatores de risco, como pressão alta, níveis de colesterol e obesidade, todos contribuintes importantes para doenças cardíacas. Uma alimentação saudável ajuda a prevenir novos problemas cardíacos, o que é chamado de prevenção secundária; além de melhorar a capacidade funcional e a qualidade de vida dos pacientes, proporcionando mais independência para as atividades diárias. No entanto, para muitos pacientes, aderir a essas diretrizes alimentares pode ser um grande desafio, mesmo quando estão participando de um programa de reabilitação cardíaca. Isso é especialmente desafiador para aqueles que vivem em ambientes com poucos recursos (áreas ou comunidades com poucos recursos e pouco apoio para saúde e bem-estar). 

A reabilitação cardíaca é uma abordagem interdisciplinar focada em intervenções para a prevenção secundária e melhora do prognóstico cardiovascular, com o objetivo de reduzir o impacto global das doenças cardiovasculares. Recentemente, conduzimos um estudo(1) com o objetivo de entender as barreiras e facilitadores que pacientes de baixa renda enfrentam ao tentar seguir recomendações nutricionais na reabilitação cardíaca. 

Os resultados destacam o quão crítico, e ao mesmo tempo complexo, é para os pacientes manter uma dieta saudável para o coração. As descobertas deste estudo não são apenas informativas — são um apelo à ação para profissionais de saúde, formuladores de políticas públicas e comunidades. 

O custo de uma alimentação saudável 
Uma das principais barreiras que identificamos é o custo dos alimentos saudáveis. Muitos alimentos bons para o coração — como frutas frescas, vegetais e proteínas magras — podem ser caros, especialmente para indivíduos ou famílias com orçamento restrito. Em áreas de baixa renda, o acesso a esses alimentos é frequentemente limitado, as opções mais acessíveis também são as menos saudáveis. 

Essa realidade econômica dificulta que os pacientes escolham consistentemente alimentos que favoreçam a saúde do coração. Nos últimos anos, o custo dos alimentos saudáveis no Canadá, um país de alta renda, tem aumentado devido à inflação alimentar. Apesar disso, seguir o atual Guia Alimentar do Canadá é menos caro para os adultos em comparação com as versões anteriores. 

Programas que oferecem acesso acessível a alimentos saudáveis, como bancos de alimentos ou hortas comunitárias, podem ajudar a aliviar parte da pressão financeira de uma alimentação saudável. Foto: Shutterstock

Outra barreira significativa é a complexidade das informações nutricionais. Os pacientes muitas vezes são bombardeados com uma série de diretrizes alimentares, o que pode ser confuso e avassalador. Sem orientação adequada, incluindo educação e personalização, é fácil para alguém se sentir perdido ou desanimado, especialmente se lhe faltar conhecimento básico sobre nutrição. Isso pode gerar frustração e, consequentemente, uma baixa adesão às recomendações alimentares. 

Fatores culturais também desempenham um papel importante. Em muitos casos, as dietas tradicionais do país podem não estar alinhadas com as diretrizes padrão recomendadas para a saúde do coração. Os pacientes podem achar difícil adaptar seus hábitos alimentares sem sentir que estão perdendo uma parte importante de sua identidade cultural. Essa desconexão pode tornar ainda mais difícil para os pacientes manterem uma dieta saudável para o coração. 

Capacitando os pacientes a comer melhor 
Apesar desses desafios, nosso estudo também destacou vários facilitadores que podem fazer uma diferença significativa. Um dos mais eficazes é o apoio da comunidade. Programas que oferecem acesso acessível a alimentos saudáveis, como bancos de alimentos ou hortas comunitárias, podem ajudar a aliviar parte das pressões financeiras. 

Além disso, fontes de informação acessíveis que simplificam orientações nutricionais complexos em etapas simples e práticas podem capacitar os pacientes a fazer escolhas mais saudáveis. Incorporar alimentos culturalmente relevantes nos planos alimentares pode tornar a transição para uma dieta saudável para o coração mais viável e aceitável. Quando os pacientes percebem que seus alimentos tradicionais podem fazer parte da dieta, é mais provável que eles adotem e mantenham as mudanças recomendadas. 

Nossas descobertas enfatizam a importância de uma abordagem personalizada para a orientação nutricional na reabilitação cardíaca, especialmente para pacientes de baixa renda. Não basta apenas dizer aos pacientes o que comer — os profissionais de saúde precisam ouvir e entender os desafios únicos que os pacientes enfrentam e oferecer soluções práticas e sustentáveis. Isso significa trabalhar de perto com os pacientes, oferecendo conselhos personalizados que considerem sua situação financeira, fornecendo acesso a recursos e respeitando suas preferências culturais. 

Tornando as dietas saudáveis para o coração acessíveis 
As implicações de nossa pesquisa vão além do cuidado individual com o paciente. Elas destacam a necessidade de mudanças sistêmicas que tornem a alimentação saudável mais acessível para todos. Isso pode incluir políticas que subsidiem alimentos saudáveis, aumentem a disponibilidade de produtos frescos em áreas carentes ou criem programas educacionais acessíveis a todos. 

Seguir as recomendações nutricionais é vital para o manejo das doenças cardiovasculares, mas nem sempre é fácil, especialmente para aqueles com recursos limitados. Identificar e abordar as barreiras específicas que esses pacientes enfrentam pode ajudá-los a fazer mudanças positivas e duradouras na dieta e, em última análise, na saúde do coração. 

Esta pesquisa destaca a necessidade de uma abordagem mais equitativa para o atendimento à saúde, uma que garanta que todos os pacientes tenham o apoio necessário para viver vidas mais saudáveis e longas. 


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