O Projeto Clínica Ampliada, da Escola de Enfermagem da UFMG, alcançou resultados que superaram as expectativas em apenas dois anos de atuação. Criada em 2024 para integrar ensino, pesquisa, extensão e assistência na Atenção Primária à Saúde, a iniciativa previa atender aproximadamente 100 usuários, mas já beneficiou 489 pessoas até junho de 2026. Nesse período, ampliou sua atuação em diferentes frentes do cuidado e conquistou reconhecimento nacional ao ser selecionado entre os 15 melhores projetos do Brasil no 18º Encontro do Fórum de Coordenação das Condições Crônicas Não Transmissíveis (FórumCCNTs).
Coordenado pela professora Ana Carolina Micheletti Gomide Nogueira de Sá, do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da EEUFMG, e desenvolvido em parceria com o Centro de Saúde Dom Cabral, o projeto consolidou, ao longo do primeiro semestre de 2026, uma estratégia de cuidado que aproxima universidade, serviços de saúde e comunidade. As ações passaram a contemplar o acompanhamento longitudinal de pessoas com doenças crônicas, população idosa, crianças e adolescentes, além da qualificação de profissionais da Atenção Primária, fortalecendo a integração entre a Escola de Enfermagem da UFMG e o Sistema Único de Saúde (SUS).

Mais do que ampliar o número de atendimentos, o Clínica Ampliada consolidou um modelo de formação que insere estudantes em cenários reais de prática profissional. Consultas de enfermagem, grupos educativos, ações do Programa Saúde na Escola (PSE), mutirões, pesquisas e atividades de educação permanente passaram a integrar a rotina do projeto, permitindo que ensino, pesquisa e extensão aconteçam de forma articulada e gerem impacto direto na assistência prestada à população.
Como parte da premiação no FórumCCNTs, o estudante de Enfermagem Luiz Felipe Santiago Campolina Viana representou a equipe do projeto em São Paulo, e apresentou os resultados da iniciativa. Para Luiz, a experiência fortaleceu a sua formação acadêmica e evidenciou a importância da integração entre ensino, pesquisa, extensão e o SUS. “Tive trocas singulares com pesquisadores, gestores e profissionais de saúde de diferentes regiões do país, ampliando minha compreensão sobre os desafios e as estratégias voltadas ao cuidado das condições crônicas”, destaca.
Projeto amplia cuidado e formação na Atenção Primária
Um dos principais avanços registrados em 2026 foi o fortalecimento do acompanhamento longitudinal dos usuários, especialmente da população idosa. Em junho, o projeto promoveu dois novos mutirões de captação em parceria com estudantes do 8º período do curso de Enfermagem da UFMG durante o estágio curricular em Atenção Primária à Saúde.
Os estudantes realizaram avaliações clínico-funcionais por meio do Instrumento de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20), aferição de sinais vitais, avaliações antropométricas e testes rápidos para infecções sexualmente transmissíveis. A estratégia, sob supervisão da professora Ana Carolina Micheletti Gomide Nogueira de Sá e do enfermeiro Gabriel Soares Damaceno e com apoio da estudante Júlia Ferreira Costa, permitiu identificar precocemente situações de vulnerabilidade e ampliar o acompanhamento dos usuários por meio de consultas de enfermagem, planos de cuidado individualizados e grupos educativos voltados ao envelhecimento saudável, autonomia, cognição e funcionalidade.

A atuação também proporcionou experiências marcantes para os estudantes envolvidos. A graduanda Ágata Paula Paiva destaca que a participação nas atividades permitiu compreender, na prática, a importância da longitudinalidade do cuidado e do fortalecimento do vínculo entre equipes de saúde e comunidade. “Foi possível perceber como a construção de relações de confiança favorece a adesão às orientações e a corresponsabilização pelo cuidado, elementos fundamentais para a efetividade das ações desenvolvidas na Atenção Primária.”
Já Milena Fernandes Moraes ressalta que orientar um usuário com pré-diabetes mostrou como intervenções simples, construídas a partir da realidade de cada pessoa, podem promover autonomia e mudanças significativas na qualidade de vida. “Durante a coleta de dados de um usuário idoso com pré-diabetes, percebi que ele possuía muitas dúvidas sobre alimentação e sobre como suas escolhas diárias poderiam influenciar sua saúde. Juntos, construímos um plano alimentar simples e adaptado à sua realidade, discutindo opções de refeições, frutas mais adequadas e restrições necessárias no seu dia a dia”.
O projeto também ampliou o conceito de cuidado integral ao incorporar ações voltadas à cidadania. Em parceria com a colaboradora e juíza Maíra Helena Micheletti Gomide, foram realizados encontros sobre os direitos da pessoa idosa, e abordou temas como prevenção de golpes financeiros, empréstimos consignados, fraudes digitais, uso seguro do PIX e garantia de direitos. Para Maíra, a iniciativa fortaleceu a autonomia da população idosa ao aproximar a universidade da comunidade e ampliar o acesso à informação sobre direitos e cidadania. “Ao divulgar os direitos garantidos pelo Estatuto da Pessoa Idosa e orientar sobre educação financeira, o projeto contribui para que os idosos conheçam seus direitos, previnam fraudes e tenham mais segurança para administrar seus recursos. Foi uma honra participar de um projeto voltado a uma população que cresce continuamente e demanda cada vez mais atenção”, destaca.
Para a coordenadora do projeto, professora Ana Carolina Micheletti Gomide Nogueira de Sá, os resultados alcançados refletem uma proposta construída desde a criação da iniciativa. “Quando idealizamos o Clínica Ampliada, queríamos construir muito mais do que um projeto de extensão. Nosso objetivo sempre foi integrar ensino, pesquisa e extensão para produzir conhecimento e, principalmente, melhorar a vida das pessoas. Ver estudantes se tornarem profissionais comprometidos com o SUS é uma das maiores recompensas desse trabalho.”
Ações fortalecem o cuidado integral e a prevenção
Além das ações voltadas à população idosa, o Projeto Clínica Ampliada ampliou, em 2026, sua atuação junto a pessoas com doenças crônicas, crianças, adolescentes e profissionais da Atenção Primária à Saúde, reforçando o trabalho interdisciplinar desenvolvido no Centro de Saúde Dom Cabral.
Em parceria com a nutricionista Mônica Fontes, do e-Multi da unidade, o projeto apoiou grupos voltados ao acompanhamento de pessoas com diabetes, obesidade, sobrepeso e fatores de risco cardiovasculares. As atividades reuniram estudantes de Enfermagem da UFMG e de Nutrição da PUC Minas na elaboração de materiais educativos e no desenvolvimento de ações de educação em saúde, fortalecendo a integração entre diferentes áreas do conhecimento.

Segundo Mônica Fontes, a parceria aproximou universidade e serviço de saúde, promovendo a troca de experiências entre profissionais, estudantes e comunidade. “O comprometimento da equipe, a criatividade das ações e a produção de materiais técnicos contribuíram para qualificar a assistência prestada aos usuários e também para a formação dos futuros profissionais”, destaca.
Outra frente que apresentou resultados expressivos foi o grupo de cessação do tabagismo. Após a realização de seis encontros estruturados, conduzidos pelo enfermeiro Gabriel Damasceno com apoio da estudante de doutorado da EEUFMG, Isabela Lana e a estudante Júlia Ferreira, o projeto implantou uma etapa permanente de acompanhamento dos participantes, com grupos mensais de manutenção, consultas individuais de enfermagem e planos de cuidado personalizados. O Processo de Enfermagem também passou a integrar as consultas realizadas pelo projeto, qualificando os registros assistenciais, o planejamento do cuidado e o acompanhamento longitudinal dos usuários. A estratégia, inicialmente adotada no grupo de tabagismo, foi posteriormente ampliada para o atendimento às pessoas idosas. No enfrentamento ao tabagismo, a equipe também produziu e distribuiu materiais educativos, como cartilhas elaboradas em parceria com especialistas, como Patrícia Vieira de Luca, presidente da Associação Brasileira de Hipercolesterolemia Familiar. Para ela, a iniciativa fortalece o cuidado centrado na pessoa ao aproximar a universidade da realidade dos serviços do SUS. “Esse projeto leva a academia para a ponta do atendimento, dentro da rede de atenção à saúde do SUS”, destaca.
As ações de promoção da saúde também chegaram às escolas do território por meio do Programa Saúde na Escola (PSE), desenvolvido em parceria com o Centro de Saúde Dom Cabral. Aproximadamente 100 crianças e adolescentes participaram de atividades sobre saúde mental, cultura de paz, prevenção da violência, respeito às diferenças e desenvolvimento de habilidades socioemocionais. Nas creches, as ações utilizaram histórias, brincadeiras e jogos educativos para estimular o reconhecimento das emoções e fortalecer vínculos desde a primeira infância.
Para a técnica de saúde bucal Silvana Bernardo, responsável pelas atividades do PSE na unidade, a participação dos estudantes da UFMG foi determinante para o sucesso das ações. Segundo ela, a equipe se destacou pela atuação dinâmica nas escolas, pelo envolvimento nas visitas domiciliares e pelo fortalecimento do vínculo entre os serviços de saúde e a comunidade. “O grande diferencial da atuação dos estudantes da UFMG foi o dinamismo nas ações do Programa Saúde na Escola (PSE). Eles foram peças-chave para o desenvolvimento das oficinas do saber nas escolas locais, ministrando palestras educativas e motivacionais diretamente para os estudantes. Eles também atuaram de forma muito participativa e humanizada nas visitas domiciliares e na facilitação dos grupos fortalecendo o vínculo com a comunidade e o território.”
O projeto também investiu na qualificação das equipes da Atenção Primária. Atendendo a uma demanda do Centro de Saúde Dom Cabral, promoveu capacitação para agentes comunitários de saúde sobre a aplicação do Instrumento de Vulnerabilidade Clínico-Funcional (IVCF-20), utilizado para identificar idosos em situação de maior risco e subsidiar o planejamento do cuidado. Paralelamente, foram iniciadas reuniões científicas para construção de indicadores capazes de monitorar a cobertura das ações, a adesão dos usuários e os resultados alcançados pelo projeto.
Extensão transforma a formação dos estudantes
Mais do que ampliar o acesso da população aos serviços de saúde, o Projeto Clínica Ampliada consolidou-se como um importante espaço de formação profissional. Ao atuar em cenários reais da Atenção Primária, estudantes de graduação e pós-graduação vivenciam consultas de enfermagem, grupos educativos, visitas domiciliares, ações do Programa Saúde na Escola, atividades científicas e iniciativas de educação permanente, desenvolvendo competências técnicas, éticas e humanas essenciais para a atuação no SUS.
A trajetória do enfermeiro Gabriel Soares Damaceno representa esse processo de formação. Integrante do projeto desde a graduação, ele permaneceu na equipe após concluir o curso e hoje atua como subcoordenador, supervisionando estudantes, organizando o acompanhamento longitudinal dos usuários e colaborando na implantação do Processo de Enfermagem.

Segundo Gabriel, assumir a nova função significou ampliar responsabilidades e enxergar o projeto sob uma perspectiva diferente. “Enquanto estudante aprendi a importância da Atenção Primária no acompanhamento contínuo dos usuários. Como profissional, passei a orientar novos alunos e desenvolver habilidades como liderança, trabalho em equipe e escuta qualificada, que considero fundamentais para a atuação do enfermeiro.”
Em 2026, o projeto também passou a contar com sua primeira bolsa de extensão. A estudante Júlia Ferreira Costa participou de praticamente todas as frentes de atuação da iniciativa, incluindo os grupos de tabagismo, nutrição, saúde da pessoa idosa, consultas de enfermagem, ações do Programa Saúde na Escola e elaboração de materiais educativos. Para ela, a experiência ampliou a compreensão sobre o cuidado integral e mostrou como fatores sociais, familiares e emocionais influenciam diretamente a saúde das pessoas. “Receber a primeira bolsa de extensão representou reconhecimento. O primeiro semestre de 2026 foi um período extremamente enriquecedor, no qual pude acompanhar consultas, participar de grupos e desenvolver habilidades que vão muito além da formação técnica.”
As atividades e novidades do Projeto Clínica Ampliada são divulgadas no Instagram @monitoranemia.ufmg, onde também estão disponíveis materiais educativos e informações sobre as ações desenvolvidas pela equipe. Participaram dessas ações a coordenadora do projeto, professora Ana Carolina Micheletti Gomide Nogueira de Sá, e os subcoordenadores Tércia Moreira Ribeiro da Silva e Gabriel Soares Damaceno (EEUFMG), além dos docentes e pesquisadores da UFMG, Deborah Carvalho Malta, Maria Odete Pereira, Antonio Tolentino Nogueira Sá, Bárbara Carrato, Fabiana Dias e Isabela Lana. A equipe contou com os estudantes Júlia Ferreira Costa, Luiz Felipe Santiago Campolina Viana, Filippe Lima Cavalcante, Mariana Pimenta Melo Souza Satiro, Ludmila Costa, Thiago Henrique Botelho de Freitas, Luana Delfino, Eduarda Costa, Maria Vitória Luiz, Bernardo Bendia, Ágata Paula, Maria Victória Batista Costa, Sinara Ruany, Flora Vitória Serena Olivera Baldi, Camila Almeida Alexandrino, Milena Fernandes Moraes, Sabrina Berger da Silva, Bárbara Mesquita, Poliana Grazielle Quaresma Oliveira, Tatiele Moreira Paula, Melissa Godinho de Andrade e Alexia Cavalcante Correa Dornas. O projeto também reuniu parceiros como: Maíra Helena Micheletti Gomide (FórumCCNTs/JEC Ponta Grossa), Elton Junio Sady Prates (Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais), Patrícia Vieira de Luca (Associação Brasileira de Hipercolesterolemia Familiar – AHF/FórumCCNTs), Edmar Geraldo Ribeiro (FASEH) e a equipe do Centro de Saúde Dom Cabral, representada pela gerente Heleodora Lamounier Miranda e pelas profissionais Amanda Araújo, Neuza Oliveira, Glaúcia Galizzi, Mônica Fontes e Silvana Bernardo.
