Apresentação
O Observatório de Pesquisa e Estudos em Vacinação (OPESV) foi criado em 2016, após o ingresso da Dra. Fernanda Penido Matozinhos como professora adjunta no Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EE-UFMG).
O Observatório, historicamente, possui ampla atuação em projetos direcionados ao aumento das coberturas vacinais no Brasil, na avaliação da qualidade do gerenciamento do cuidado e do sistema de vigilância em saúde e na capacitação dos profissionais de saúde.
Nesse contexto, ainda em 2016, com a diminuição acentuada das coberturas vacinais, o OPESV deu início ao projeto de pesquisa “Vacinação de gestantes: avaliação dos aspectos epidemiológicos e clínicos no município de Belo Horizonte”, cujo objetivo principal consistia em analisar a cobertura vacinal nessa população específica e seus fatores associados. Desde então, o OPESV-EEUFMG fortaleceu sua atividade e, atualmente, possui a participação de professores de diferentes departamentos, graduandos, pós-graduandos e pesquisadores experientes nas áreas de saúde coletiva e epidemiologia. Nos últimos anos, considerando a sua liderança em projetos de aumento das coberturas vacinais, foram estabelecidas parcerias institucionais nacionais e internacionais, como o Ministério da Saúde; Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS); Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG); Universidade de São Paulo (USP); Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP); University of Technology Sydney e Unidade Local de Saúde de Matozinhos, em Portugal.
Por reconhecer a importância da integração dos saberes entre a população, a academia e o serviço, bem como da disseminação desse conhecimento, a líder do OPESV, Profa. Dra. Fernanda Penido, coordena diversos eventos científicos visando discussões acerca das estratégias de aumento das coberturas vacinais. Dentre esses, destaca-se o “I Congresso Brasileiro Defesa da Vacinação: desafios e estratégias”, em 2023, e o “II Congresso Brasileiro Defesa da Vacinação: a reconquista das altas coberturas vacinais”, em 2025, os quais contaram com a participação de representantes do Ministério da Saúde; da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS); da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG); da Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo (SES-SP); da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA); da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); da Universidade de São Paulo (USP); da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ); do Conselho Estadual de Saúde de Minas Gerais (CES-MG); dos Conselhos de Secretarias Municipais de Saúde de Minas Gerais (COSEMS-MG); da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e da Sociedade Brasileira de Imunização (SBIm), além de participantes inscritos de dezenas de estados brasileiros. O Observatório completa, em 2026, uma década de parceria junto à SES-MG e lidera uma pesquisa-intervenção, apoiada pela OPAS, com o objetivo de propor estratégias para o aumento das coberturas vacinais nos ciclos de vida em Minas Gerais, Brasil, por meio do fortalecimento das práticas de gestão, vigilância epidemiológica e atenção à saúde. Esse projeto-intervenção possui um importante diferencial: promover de forma consubstancial a articulação entre o conhecimento da academia, dos serviços de saúde e da gestão, unindo saberes dos representantes da Vigilância Epidemiológica, da Atenção Primária à Saúde (APS) e da comunidade universitária. O projeto aborda uma temática altamente relevante para o Sistema Único de Saúde (SUS), a articulação com gestores e as instituições do sistema de saúde, assim como propõe integrar diferentes abordagens metodológicas, respondendo às prioridades de pesquisa contemporâneas, tanto globais quanto nacionais.
Integração ensino-serviço para o aumento das coberturas vacinais
Ao iniciar o ciclo de gestão 2023 – 2026, a SES/MG parte para a estruturação de um robusto e participativo Planejamento Estratégico, estipulando, como visão, “Tornar real o SUS ideal” e desdobrando em diversos objetivos estratégicos, dentre os quais se ressalta “Alcançar o maior nível de cobertura vacinal para prevenir internações e óbitos”. São formulados, após esse plano, os projetos estratégicos que viabilizam o alcance dos objetivos estratégicos delimitados neste processo participativo.
Decorre daí o projeto “Vacina mais Minas”, que almejou consolidar uma série de iniciativas intersetoriais, de forma a se constituir num arcabouço intersetorial capaz de fazer frente ao desafio posto de alcançar novamente os níveis desejáveis de cobertura vacinal. Várias iniciativas desdobraram-se a partir de então. Haja vista a necessidade de protagonismo, inovação e pactuação nas diversas governanças instituídas pelo SUS, buscou-se estabelecer um financiamento histórico para a retomada das coberturas vacinais.
Podemos exemplificar a pioneira Resolução de financiamento para o incentivo ao aumento das coberturas vacinais, pactuada em 2023, e que financiou 165 milhões de reais a todos os 853 municípios mineiros, com metas claras relativas ao aumento das coberturas vacinais, frente às metas preconizadas pelo Programa Nacional de Imunizações, e com metas de realização de ações extramuros, dentro do ambiente escolar, em cada território mineiro. De forma inovadora, visando tornar mais prático o acesso a vacinas em todos os cantos do Estado, pactuou-se a política de financiamento dos Vacimóveis, vans adaptadas que levam uma sala de vacina em ações extramuro. Somente nesta ação, foram investidos cerca de 100 milhões de reais na aquisição de cerca de 250 vans, as quais trazem, além da ação de vacinação, a lembrança da necessidade de se fortalecer os mecanismos de prevenção e promoção à saúde.
Legitimando a governança do SUS, fundamental para alcançarmos objetivos estruturantes, pudemos pactuar de forma inédita uma política em nossa Comissão Intergestores Bipartite e em nosso Conselho Estadual de Saúde, que se constitui no Programa Mineiro de Imunizações - PMI. Pela primeira vez, foi pactuada uma política pública com responsabilidades, indicadores, metas e objetivos muito claros entre todos os atores, e garantiu-se, fundamentalmente, um cofinanciamento para este propósito tão fundamental em nossa sociedade. Fortalecendo ainda mais este processo, avançamos na pactuação de um cofinanciamento recorde, de 210 milhões de reais, a todos os municípios mineiros, abrangendo indicadores e metas que abarcam processos de trabalho e objetivos finalísticos definidos. A participação nas oficinas de trabalho, nesta tão vigorosa e bem-sucedida parceria SES/MG e OPESV, a realização de campanhas de mobilização e “dias D”, o aumento de coberturas vacinais e a execução de ações extramuro de vacinação – inclusive com os Vacimóveis e com ações de vacinação no ambiente escolar – são exemplos de indicadores pactuados no bojo do PMI.
Outras diversas ações, relativas a avanços em tecnologia da informação, em campanhas de mobilização por público e por vacina e em inovações poderiam ser ditas. Podemos, ainda, neste momento exaltar a parceria estratégica constituída ao longo dos anos entre serviço e academia em prol da melhoria de nossa política pública. Para além das oficinas de trabalho – intervenção fundamental junto aos territórios para reconhecer os desafios e agregar o componente de planejamento e ação da ação vacinal –, pudemos construir muito mais. Pesquisas e estudos puderam aprofundar os conhecimentos sobre hesitação vacinal, dando subsídios claros para o aperfeiçoamento necessário a toda e qualquer política pública. Criamos, assim, os Cursos de Boas Práticas em Vacinação, iniciativa que agrega conhecimento a Enfermeiros, Agentes Comunitários de Saúde e Médicos e que compartilha boas práticas e experiências junto aos municípios, às Regionais de Saúde e ao Nível Central da SES/MG e demais profissionais de saúde.
Muito mais poderia ser escrito sobre esta parceria estratégica, mas, mais do que isso, é melhor vermos exemplos práticos do que foi pensado em conjunto. Nesse sentido, sabe-se que, quando se quer ir mais rápido, vai-se sozinho; quando se quer ir mais longe, vai-se acompanhado. Escolhemos, então, ir acompanhados, e nesta companhia teremos oportunidade de conhecer iniciativas que transformam a vida dos territórios, gerando mais saúde, proteção e prevenção.
Reconhecendo o planejamento estratégico como caminho para a melhoria das coberturas vacinais, a SES/MG e o OPESV/EEUFMG iniciaram dezenas de oficinas que abordaram exposições dialogadas, problematização e construção de planos de ação para a melhoria de coberturas vacinais. Participaram gestores de saúde e coordenadores de Vigilância em Saúde, Imunização e Atenção Primária de 28 Unidades Regionais de Saúde de Minas Gerais, além de parceiros externos, totalizando, até o momento, mais de cinco mil pessoas, oriundas de 783 municípios mineiros (Imagem 1).
Foi possível notar a efetividade das intervenções diretas nos territórios, com maior compreensão das barreiras e potencialidades dos municípios para implementar estratégias voltadas para aumentar a cobertura vacinal – além da articulação entre ensino, pesquisa e serviços de saúde. A estratégia de integração ensino-serviço contribuiu sobremaneira para a melhoria do cenário de coberturas vacinais no estado de Minas Gerais e Brasil nos últimos anos.
As Oficinas possibilitaram, também, o diagnóstico das principais demandas dos territórios, dentre as quais se destaca, primordialmente, o apoio nas ações de capacitação aos profissionais de saúde que atuam em salas de vacina e aos demais profissionais envolvidos com a imunização, especialmente os agentes comunitários de saúde, profissionais enfermeiros e médicos. Além disso, são oportunizados eventos científicos, como os Seminários nas macrorregiões de saúde.