{"id":4370,"date":"2025-02-10T21:02:13","date_gmt":"2025-02-11T00:02:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.enf.ufmg.br\/?page_id=4370"},"modified":"2026-07-07T14:17:13","modified_gmt":"2026-07-07T17:17:13","slug":"impactos-da-violencia-contra-as-mulheres-vao-alem-das-mortes-e-lesoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.enf.ufmg.br\/?p=4370","title":{"rendered":"Impactos da viol\u00eancia contra as mulheres v\u00e3o al\u00e9m das mortes e les\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" style=\"float: left;\" src=\"images\/Nova pasta\/pesquisa_violencia.jpg\" alt=\"\" \/>A viol\u00eancia contra as mulheres \u00e9 respons\u00e1vel, no Brasil, por altas taxas de mortalidade, mas tamb\u00e9m pode gerar outros agravos. Os impactos podem ter a forma de preju\u00edzos \u00e0 sa\u00fade f\u00edsica, mental e sexual. De acordo com pesquisa realizada por N\u00e1dia de Machado Vasconcelos para tese de doutoramento do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade P\u00fablica da UFMG, mulheres que convivem cronicamente com a viol\u00eancia est\u00e3o em maior risco de desenvolver problemas de sa\u00fade como cefaleia, dores abdominais e lombares, dist\u00farbios do sono, fibromialgia e s\u00edndrome do intestino irrit\u00e1vel, e ainda ansiedade, depress\u00e3o e inclina\u00e7\u00e3o para o uso abusivo de drogas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA gente fala sempre das consequ\u00eancias f\u00edsicas, que s\u00e3o as les\u00f5es, fraturas, que muitas vezes exigem a interna\u00e7\u00e3o, mas existem tamb\u00e9m as psicol\u00f3gicas, como a depress\u00e3o, a ansiedade e tentativas de autoexterm\u00ednio, por exemplo\u201d, pontua a autora da tese A carga da viol\u00eancia contra as mulheres no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e1dia Vasconcelos lembra que mulheres que t\u00eam parceiros violentos s\u00e3o muitas vezes for\u00e7adas a pr\u00e1ticas de sexo inseguro, o que compromete o planejamento familiar e aumenta a exposi\u00e7\u00e3o ao risco de contrair infec\u00e7\u00f5es sexualmente transmiss\u00edveis (IST). De acordo com a doutora em Sa\u00fade P\u00fablica, quando as mulheres tentam lidar com a viol\u00eancia e suas consequ\u00eancias, elas podem tamb\u00e9m desenvolver h\u00e1bitos n\u00e3o saud\u00e1veis, como o consumo de drogas, \u00e1lcool, o tabagismo, entre outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cH\u00e1 tamb\u00e9m consequ\u00eancias que v\u00e3o al\u00e9m da sa\u00fade f\u00edsica e mental, como as faltas excessivas ao trabalho e, muitas vezes, a perda do emprego. Quando a gente fala de pessoas mais jovens, a viol\u00eancia gera aus\u00eancia na escola e, portanto, baixo desempenho acad\u00eamico. Ou seja, a viol\u00eancia afeta as mulheres, individualmente, e a sociedade\u201d, ressalta N\u00e1dia Vasconcelos, que foi orientada pela professora Deborah de Carvalho Malta, da Escola de Enfermagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A viol\u00eancia contra a mulher caracteriza-se como qualquer a\u00e7\u00e3o ou conduta, baseada no g\u00eanero, que cause morte, dano ou sofrimento f\u00edsico, sexual ou psicol\u00f3gico \u00e0 mulher, tanto no \u00e2mbito p\u00fablico como privado. \u00c9 considerada uma viola\u00e7\u00e3o dos Direitos Humanos, na medida em que priva as mulheres de seu direito \u00e0 vida e \u00e0 integridade f\u00edsica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Agress\u00f5es predominam no ambiente familiar<\/strong><br \/>A pesquisa realizada por N\u00e1dia Vasconcelos revela que um aspecto crucial da viol\u00eancia contra as mulheres \u00e9 que ela se d\u00e1, mais frequentemente, nos ambientes dom\u00e9stico e intrafamiliar e que os principais agressores s\u00e3o pessoas pr\u00f3ximas, como os parceiros \u00edntimos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dados gerados pela investiga\u00e7\u00e3o mostram que, globalmente, 26% das mulheres com 15 anos ou mais relataram ter sofrido viol\u00eancia do parceiro \u00edntimo ao longo da vida, enquanto 10% delas relataram que houve casos nos \u00faltimos 12 meses. No Brasil, estudo anterior mostrou que 37,5% de mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia atendidas em hospitais e postos de sa\u00fade sofreram a agress\u00e3o de um parceiro \u00edntimo, e 25,4%, de um familiar. Al\u00e9m disso, 63,5% das viol\u00eancias ocorreram na resid\u00eancia da v\u00edtima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando se trata do n\u00facleo familiar, pode haver impactos na vida de outras pessoas. Por exemplo, as agress\u00f5es continuadas podem levar ao distanciamento entre m\u00e3es e filhos, uma vez que as mulheres se isolam como forma de lidar com a viol\u00eancia sofrida. Al\u00e9m disso, as crian\u00e7as que crescem em lares violentos t\u00eam grandes chances de tamb\u00e9m se tornarem v\u00edtimas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" style=\"float: right;\" src=\"images\/Nova pasta\/Nadia_Machado.png\" alt=\"\" \/>\u201cSabemos que crian\u00e7as em lares com viol\u00eancia t\u00eam maior risco de tamb\u00e9m sofrerem viol\u00eancias e ainda de se tornarem agressores quando mais velhos. \u00c9 sabido, da mesma forma, que uma menina que presencia, desde muito nova, agress\u00f5es do pai contra a m\u00e3e tende a se tornar v\u00edtima no futuro porque muitas vezes passa a ver aquela viol\u00eancia como algo natural dentro de casa\u201d, observa N\u00e1dia Vasconcelos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pesquisa ainda destaca que a viol\u00eancia durante a gesta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode trazer consequ\u00eancias severas para a m\u00e3e e para o feto. De acordo com N\u00e1dia, estudos indicam que a gravidez aumenta a vulnerabilidade \u00e0 viol\u00eancia e que os agravos durante esse per\u00edodo podem ter desfechos muito desfavor\u00e1veis para a sa\u00fade materna, como o aumento de sintomas depressivos, inadequa\u00e7\u00e3o do cuidado pr\u00e9-natal, complica\u00e7\u00f5es obst\u00e9tricas \u2013 podem afetar a sa\u00fade do feto ou do rec\u00e9m-nascido e, no limite, levar ao aborto. \u201cEssas mulheres muitas vezes t\u00eam dores durante a gesta\u00e7\u00e3o e partos prematuros. A crian\u00e7a que nasce antes da hora pode ter baixo peso e sofrer consequ\u00eancias que podem durar a vida inteira\u201d, destaca a pesquisadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quest\u00e3o de g\u00eanero<\/strong><br \/>De acordo com a tese apresentada em dezembro de 2024, a an\u00e1lise do desenvolvimento hist\u00f3rico e contextual das rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero revela que o dom\u00ednio do homem sobre a mulher se explica principalmente pela hierarquiza\u00e7\u00e3o socialmente criada. As rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o regidas por dois princ\u00edpios b\u00e1sicos: as mulheres est\u00e3o hierarquicamente subordinadas aos homens, e os jovens est\u00e3o subordinados aos homens mais velhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA gente sabe que a viol\u00eancia \u00e9 uma forma de demonstra\u00e7\u00e3o de poder; ela acontece quando a pessoa que est\u00e1 no topo da hierarquia tenta dominar outra que ela considera abaixo. Isso diz muito sobre a quest\u00e3o do g\u00eanero em nossa sociedade: as mulheres s\u00e3o inferiorizadas, sobretudo pelos homens brancos\u201d, explica N\u00e1dia Vasconcelos. A viol\u00eancia de g\u00eanero n\u00e3o se dirige apenas \u00e0s mulheres, mas tamb\u00e9m a crian\u00e7as, adolescentes, idosos e outros grupos considerados dissonantes, como as minorias sexuais e de g\u00eanero. \u201cVisto como express\u00e3o do ser e n\u00e3o apenas do ponto de vista biol\u00f3gico, o g\u00eanero define, para os agressores, os grupos que eles devem dominar\u201d, completa N\u00e1dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00fameros de pesquisas recentes mostram que, no mundo, ocorreram 88.900 feminic\u00eddios apenas no ano de 2022; no Brasil, foram registrados 3.930 assassinatos de mulheres em 2023. Por\u00e9m, as mortes representam apenas uma fra\u00e7\u00e3o do problema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma revis\u00e3o conduzida pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) analisou estudos realizados entre 2000 e 2018 e constatou que 30% das mulheres com 15 anos ou mais relataram pelo menos um epis\u00f3dio de viol\u00eancia f\u00edsica e\/ou sexual ao longo da vida. Isso significa que aproximadamente 736 milh\u00f5es de mulheres dessa faixa et\u00e1ria j\u00e1 foram v\u00edtimas de viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, uma pesquisa do Instituto DataSenado revelou que 32% das mulheres com 16 anos ou mais relataram ter sofrido viol\u00eancia ao longo da vida, e 22% delas afirmaram que pelo menos um epis\u00f3dio ocorreu no \u00faltimo ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Determinantes sociais<\/strong><br \/>N\u00e1dia Vasconcelos afirma que a viol\u00eancia tamb\u00e9m tem forte influ\u00eancia de determinantes sociais, como a desigualdade, que agrava as vulnerabilidades. Al\u00e9m disso, mulheres negras t\u00eam o dobro de chance de sofrer feminic\u00eddios, na compara\u00e7\u00e3o com mulheres brancas. Da mesma forma que mulheres com renda de at\u00e9 um sal\u00e1rio m\u00ednimo t\u00eam chance 55% maior que as desfrutam situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ao meno um pouco melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escolaridade tamb\u00e9m entra nessa equa\u00e7\u00e3o. De acordo com a pesquisa, mulheres de baixa escolaridade s\u00e3o as principais v\u00edtimas de viol\u00eancia recorrente perpetrada por parceiros ou outros agressores do sexo masculino. \u201cMeu estudo constatou que a viol\u00eancia n\u00e3o letal e tamb\u00e9m a letal atingem mais as mulheres negras e as de baixa escolaridade, que t\u00eam menor acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o\u201d, pontua a pesquisadora. Ela acrescenta, esse aspecto \u00e9 muito importante no Brasil porque as mulheres s\u00e3o um grupo heterog\u00eaneo, e algumas delas est\u00e3o em maior risco do que outras. \u201cMulheres negras e as de baixa escolaridade est\u00e3o sim mais expostas \u00e0 viol\u00eancia e precisam de um olhar cuidadoso.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para N\u00e1dia, esses s\u00e3o apenas alguns fatores que se associam \u00e0 viol\u00eancia, que exige a\u00e7\u00f5es intersetoriais para seu efetivo enfrentamento, visando \u00e0 redu\u00e7\u00e3o dos impactos potenciais na vida das mulheres. \u201cN\u00e3o adianta elaborar uma pol\u00edtica p\u00fablica direcionada \u00e0s mulheres se n\u00e3o houver um olhar sens\u00edvel para as mulheres negras de baixa escolaridade. Muitas vezes, a pol\u00edtica p\u00fablica relacionada \u00e0 viol\u00eancia d\u00e1 muito certo para um outro grupo, por exemplo, um grupo de mulheres brancas, que t\u00eam acesso a v\u00e1rios dos seus direitos. \u00c9 preciso focar nas mulheres que n\u00e3o t\u00eam seus direitos respeitados, em raz\u00e3o de diferentes barreiras\u201d, conclui a pesquisadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tese<\/strong>: A carga da viol\u00eancia contra as mulheres no Brasil<br \/><strong>Autora<\/strong>: N\u00e1dia de Machado Vasconcelos<br \/><strong>Orientadora<\/strong>: Deborah Carvalho Malta<br \/><strong>Programa<\/strong>: P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade P\u00fablica<br \/><strong>Defesa<\/strong>: 3 de dezembro de 2024<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>(Portal da Faculdade de Medicina da UFMG)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A viol\u00eancia contra as mulheres \u00e9 respons\u00e1vel, no Brasil, por altas taxas de mortalidade, mas tamb\u00e9m pode gerar outros agravos. 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