Seminário debate prevenção do idadismo e garantia de direitos da pessoa idosa


O combate ao idadismo exige reconhecer como o preconceito relacionado à idade se manifesta nas relações cotidianas, nas instituições, nas políticas públicas e nas práticas de cuidado. Essa foi uma das principais reflexões do seminário “Idadismo na década do envelhecimento saudável: da teoria às práticas cotidianas”, promovido nesta terça-feira, 6 de outubro, pela Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (EEUFMG), em parceria com a PUC Minas. Coordenado pelas professoras Sônia Maria Soares, da EEUFMG, e Natália Horta, da PUC Minas, o encontro reuniu estudantes, docentes, profissionais, gestores, representantes da sociedade civil, empresas de negócios sociais e pessoas interessadas na temática do envelhecimento.

A programação propôs discutir formas de prevenção e enfrentamento do idadismo, a garantia dos direitos da pessoa idosa no âmbito das políticas públicas e experiências desenvolvidas por instituições de ensino superior e organizações da sociedade civil. Na abertura, a professora Sônia Soares destacou o papel das universidades na formação, na pesquisa e na extensão e defendeu que o enfrentamento à violência contra a pessoa idosa e a construção de uma cultura de respeito precisam estar presentes nos diferentes espaços sociais. A professora Natália Horta ressaltou, por sua vez, a importância das relações intergeracionais como estratégia de enfrentamento ao idadismo e defendeu que a postura antidadista seja construída ao longo de toda a vida.

Professoras Sônia e Natália durante a mesa de abertura do evento

A palestra de abertura foi ministrada pela professora Larissa Picinato Mazuchelli, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), que abordou o tema “Idadismo no Século XXI, Discursos, Direitos e Práticas Cotidianas”. Pesquisadora do envelhecimento e do discurso e coordenadora do Observatório do Idadismo, Larissa apresentou situações que mostram como o preconceito etário pode aparecer tanto em formas explícitas de violência quanto em atitudes aparentemente banais.

Segundo a pesquisadora, o idadismo pode se manifestar por meio de estereótipos, práticas discriminatórias e diferentes formas de violência, inclusive de maneira autodirigida, interpessoal ou institucional. Ela chamou atenção para a relação do idadismo com outros sistemas de opressão, como racismo, sexismo, capacitismo e LGBTfobia, que podem se sobrepor e aprofundar situações de vulnerabilidade.

Entre os exemplos apresentados, estiveram situações envolvendo pessoas idosas em instituições de longa permanência, conteúdos publicados nas redes sociais e representações que associam a velhice à teimosia, à incapacidade ou à perda de autonomia. Para Larissa, mesmo situações apresentadas como humor ou entretenimento podem contribuir para a desvalorização da pessoa idosa quando expõem seu constrangimento ou desconsideram sua capacidade de escolha. “O quanto tem se criado uma cultura de achar que o constrangimento não existe, que é uma brincadeira apenas. Mas ali a gente está constrangendo”, destacou Larissa.

Outro ponto discutido foi a autonomia e o direito de escolha da pessoa idosa, especialmente nas relações de cuidado. A reflexão chamou atenção para a necessidade de construir relações que reconheçam a pessoa idosa como sujeito de direitos, evitando práticas que limitem sua autonomia em razão da idade.

Ao responder a uma pergunta sobre como estimular comportamentos benéficos à saúde sem retirar a autonomia da pessoa idosa, Larissa defendeu a construção de relações baseadas no diálogo e no conhecimento da história de vida de cada pessoa. Também alertou para a exposição indevida de pacientes nas redes sociais como forma de divulgação do trabalho profissional.

O Observatório do Idadismo, apresentado por Larissa, desenvolve materiais educativos, ações de formação e iniciativas de sensibilização voltadas à identificação e ao enfrentamento do preconceito etário. A proposta, segundo ela, é ampliar a capacidade de diferentes grupos de reconhecer práticas idadistas e construir planos de ação para enfrentá-las.

Direitos, políticas públicas e proteção social
A segunda palestra foi conduzida pela defensora pública Fernanda Fernandes, coordenadora da Defensoria Especializada da Pessoa Idosa e da Pessoa com Deficiência de Belo Horizonte, que abordou a atuação da Defensoria Pública na garantia de direitos da pessoa idosa.

Palestra da defensora pública Fernanda Fernandes,

Fernanda destacou a educação em direitos como uma das principais estratégias de prevenção ao idadismo. Para ela, o dever de cuidado com a pessoa idosa envolve Estado, sociedade e família, e a construção de ambientes que favoreçam a dignidade deve ser uma responsabilidade compartilhada. “Nós, na Defensoria, entendemos que a melhor forma de se combater o idadismo é educando e ensinando as pessoas a respeito do preconceito em razão da idade”, afirmou.

A defensora também chamou atenção para o envelhecimento populacional como uma transformação que já está presente em Minas Gerais e em Belo Horizonte. Nesse cenário, apontou desafios relacionados à assistência social, habitação, acessibilidade, mobilidade urbana, previdência, cuidado e funcionamento do sistema de Justiça. Também ressaltou que não existe uma única forma de envelhecer. “As experiências de velhice são atravessadas pelas condições sociais, econômicas e pelos diferentes tipos de preconceito vivenciados ao longo da vida”.

Um dos pontos destacados foi a compreensão do idadismo também como uma questão institucional. A restrição de acesso a direitos e a ausência ou insuficiência de políticas públicas de cuidado podem produzir situações de discriminação. Fernanda citou, nesse contexto, desafios relacionados ao acesso a serviços de cuidado, à acessibilidade urbana e à exclusão digital.

Na avaliação da defensora, o enfrentamento dessas situações exige atuação articulada entre diferentes setores” Saúde, assistência social, sistema de Justiça e rede de proteção precisam trabalhar de forma integrada para responder à complexidade do envelhecimento populacional”, destacou.

As relações familiares também foram abordadas. Fernanda Fernandes destacou que muitos conflitos relacionados ao cuidado surgem em contextos de sobrecarga e ausência de apoio, especialmente porque o trabalho de cuidado ainda é fortemente associado às mulheres e pouco valorizado socialmente. Ao mesmo tempo, ressaltou que o cuidado não pode ultrapassar os limites da autonomia da pessoa idosa.

Cuidado centrado na pessoa
A programação também contou com a mesa “Atuação e Experiências das Organizações da Sociedade Civil e Empresas Sociais na Década do Envelhecimento Saudável”, que reuniu experiências voltadas à promoção do envelhecimento saudável e ao enfrentamento do idadismo. Participaram Marcela Giovanna, da CEMAIS; Michele Queiroz Coelho, da Rede Longevidade; Carla Giacomini, médica geriatra e presidente da Associação Cuidadosa; e Moris Litvak, fundador e CEO da Maturi.

Moris Litvak, fundador e CEO da Maturi

As apresentações ampliaram o debate para temas como participação social, longevidade, trabalho, cuidado, instituições de longa permanência, diversidade etária e atuação da sociedade civil. Entre as reflexões, destacou-se a necessidade de superar uma visão da velhice centrada exclusivamente na incapacidade ou na dependência. A presidente da Associação Cuidadosa ressaltou que a necessidade de cuidado, inclusive em instituições, não retira da pessoa idosa o direito de decidir, participar e ser respeitada.

A discussão também abordou o cuidado centrado na pessoa, em contraposição a um cuidado centrado apenas na execução de tarefas. A proposta é considerar a história, as preferências, a autonomia e as escolhas da pessoa idosa como elementos fundamentais da assistência.

Na mesa, também foram apresentadas iniciativas de educação, formação, participação social, empregabilidade e empreendedorismo para pessoas com 50 anos ou mais. A experiência da Maturi mostrou estratégias voltadas à inserção de profissionais mais velhos no mercado de trabalho e ao enfrentamento da discriminação etária nas empresas. Já a Rede Longevidade apresentou iniciativas de produção e disseminação de conhecimento, formação de lideranças e articulação de diferentes setores em torno da longevidade.

Enfrentar o idadismo como compromisso coletivo
Ao longo do seminário, diferentes perspectivas convergiram para a necessidade de reconhecer a pessoa idosa como sujeito de direitos e de superar práticas que limitam sua autonomia, participação e capacidade de decisão.

Organizadores e palestrantes do evento

Para as coordenadoras do evento, promover esse debate no ambiente universitário também significa reafirmar o compromisso social das instituições de ensino com a formação de profissionais e cidadãos capazes de reconhecer e enfrentar o preconceito relacionado à idade. A proposta é que a discussão ultrapasse o espaço do seminário e alcance os ambientes de trabalho, as famílias, os serviços de saúde, as instituições e os diferentes espaços de convivência.


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