O grau de processamento dos alimentos deve ocupar um espaço central na agenda global de dietas sustentáveis. Essa é a defesa apresentada por pesquisadores do Grupo de Estudos, Pesquisas e Práticas em Ambiente Alimentar e Saúde da Universidade Federal de Minas Gerais (GEPPAAS/UFMG) em artigo publicado recentemente na revista científica internacional The Lancet Regional Health – Americas. Coordenado pela professora Mariana Carvalho Menezes, do Departamento de Nutrição da Escola de Enfermagem da UFMG (EEUFMG), o estudo destaca como a classificação Nova, desenvolvida no Brasil em 2010, contribuiu para subsidiar políticas públicas voltadas ao acesso à alimentação saudável em países latino-americanos e defende a inclusão do grau de processamento dos alimentos na agenda de sustentabilidade, diante das evidências que relacionam os ultraprocessados a impactos ambientais e à insustentabilidade dos sistemas alimentares.

A classificação Nova permitiu ampliar a forma como os alimentos são analisados, para além de seus nutrientes isolados. Segundo a professora Mariana Carvalho, o modelo contribuiu para uma compreensão mais abrangente dos efeitos do processamento industrial sobre práticas, culturas e sistemas alimentares. Para ela, a mudança conceitual proporcionada pela classificação reformulou a compreensão dos alimentos ultraprocessados, que passaram a ser considerados não apenas produtos associados a resultados adversos à saúde, mas também expressões da forma como os sistemas alimentares contemporâneos são organizados. “Ao direcionar a atenção para como e por que os alimentos são formulados, produzidos, distribuídos, promovidos e incorporados nos ambientes alimentares, a Nova ajudou a formular políticas que vão além da escolha individual”, explica.
O artigo também chama atenção para os impactos sociais e ambientais relacionados à expansão dos alimentos ultraprocessados. Entre eles estão o enfraquecimento de práticas culinárias e de sistemas alimentares locais e a maior pressão ambiental associada à produção e à distribuição desses produtos.
De acordo com os pesquisadores, o consumo de alimentos ultraprocessados tende a crescer mais rapidamente entre populações socioeconomicamente desfavorecidas. O cenário reforça, segundo o estudo, a necessidade de que as pesquisas sobre nutrição considerem, além da saúde e dos impactos ambientais, aspectos como cultura alimentar, desigualdades e relações de poder. “A expansão dos alimentos ultraprocessados representa um desafio estrutural nas dimensões de saúde, ambientais, socioculturais e econômicas das dietas sustentáveis. Com uma trajetória que se desenrolou de maneira rápida e desigual nas Américas, estes produtos industriais altamente lucrativos, padronizados e globalizados progressivamente substituíram dietas tradicionais em diversos países”, explica a professora Mariana.
Políticas públicas
O artigo aponta ainda mudanças conceituais promovidas pela classificação Nova na América Latina e mostra como orientações baseadas no processamento dos alimentos foram incorporadas a medidas regulatórias, fiscais, de compras e de organização dos ambientes alimentares.
Entre as experiências analisadas, os pesquisadores destacam a adoção de rótulos de advertência frontais nas embalagens e de medidas fiscais direcionadas a bebidas açucaradas e a determinados produtos não saudáveis no México e na Colômbia. Segundo o artigo, essas iniciativas representam tentativas de modificar, em escala populacional, as condições em que os alimentos são promovidos, comprados e consumidos.
O estudo também aponta medidas adotadas no Brasil, Chile, México, Uruguai e Equador para regular a disponibilidade, a venda ou o marketing de alimentos ultraprocessados nas escolas. Para os pesquisadores, essas experiências demonstram que a atuação governamental pode ultrapassar ações de informação e educação e alcançar intervenções nos ambientes institucionais.
Para a professora Mariana, a construção de dietas sustentáveis também exige mudanças que ultrapassem as escolhas individuais. Nesse sentido, políticas públicas podem contribuir para transformar os sistemas alimentares e tornar alimentos in natura ou minimamente processados, culturalmente adequados e produzidos de forma sustentável, mais acessíveis à população. “A experiência da América Latina sugere que a agenda global de dietas sustentáveis permanecerá incompleta, a menos que reconheça o ultraprocessamento como uma manifestação e um motor estrutural dos sistemas alimentares insustentáveis, refletindo as conexões entre saúde, meio ambiente, cultura, desigualdade e poder corporativo. É essencial promover políticas que façam de alimentos frescos, minimamente processados e culturalmente significativos o padrão acessível”, afirma.
