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Ex-secretário nacional de Vigilância em Saúde fala sobre desafios do SUS no combate à Covid-19

Wanderson OliveiraO enfermeiro, epidemiologista e egresso da Escola de Enfermagem da UFMG, Wanderson Kleber de Oliveira, que até recentemente atuou como secretário Nacional de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, ministrou nesta sexta-feira, 10 de julho de 2020, a palestra “Os desafios do Sistema Único de Saúde: reflexões no enfrentamento da pandemia Covid-19”.

A palestra, que integrou a programação de atividades dos 87 anos da Escola de Enfermagem da UFMG, completados no dia 7 de julho, foi mediada pela diretora, professora Sônia Maria Soares. “É uma honra receber novamente o Wanderson, nosso egresso, com toda sua a sua experiência em relação a este momento de pandemia que estamos vivenciando”, disse a diretora.

Segundo ele, os principais desafios do SUS no enfrentamento da pandemia passam por recurso, número de leitos, formação profissional, epidemiologia, vigilância, medicamentos, desenvolvimento de vacinas, pesquisas, laboratório, logística, inovação e tecnologia.

Sobre as características dos coronavírus, Wanderson explicou que foi descrito em 1968, a taxonomia começou como 2019-nCOV e depois mudou para SARS-Cov2, possui cinco gêneros: alfa, beta, gama, delta e gama, e os hospedeiros primários são morcegos e roedores.

O período de latência, de acordo com o enfermeiro, é o intervalo de tempo que transcorre desde que se produz a infecção até que a pessoa se torne infecciosa. No que diz respeito às manifestações clínicas, ele destacou os sintomas apresentados: dor nos olhos (0,9%); nariz entupido ou escorrendo (2,7%); tosse (2,2%); dor no peito (0,8%); dor muscular (2,0%); dor de cabeça (3,4%); dor de garganta (1,7%) e dificuldade para respirar (0,9%); perda de cheiro ou sabor (1,0%); náusea (0,7%); febre (1,5%) e fadiga (1,1%).

“Sobre a imunidade, para certos patógenos, como coronavírus 2 da síndrome respiratória aguda grave (SARS-CoV-2), as manifestações clínicas são um fraco indicador de transmissibilidade, porque os hospedeiros assintomáticos podem ser altamente infecciosos e contribuírem para disseminação de uma epidemia. Uma vez atingido o limiar de imunidade do rebanho, a eficácia da imunidade coletiva depende, em grande parte, da força e duração da imunidade adquirida. Para patógenos nos quais a imunidade ao longo da vida é induzida, como é o caso da vacinação ou infecção contra o sarampo, a imunidade coletiva é altamente eficaz e pode impedir a propagação de patógenos na população. No entanto, essa situação é relativamente rara, pois a imunidade a muitas outras doenças infecciosas, como coqueluche e rotavírus, diminui com o tempo”, explicou.

Quantas pessoas realmente se infetaram?
O epidemiologista relata que registros globais de casos, mortes, recuperações e infecções ativas refletem apenas números confirmados e que os pesquisadores suspeitam que o número real seja muito maior. “Para todas as pessoas que testam positivo para o novo coronarívus, pode haver cerca de 10 casos não detectados. Novas estimativas do Massachusetts Institute of Technology (MIT) sugerem que o mundo já havia visto 249 milhões de casos de coronavírus e 1,75 milhão de mortes até de junho. Isso faria o caso global total 12 vezes maior que os relatórios oficiais e o número global 1,5 vezes maior”.

Tela 1 Palestra1A atividade contou com cerca de 140 pessoas

Mortalidade
Sobre o que eleva a mortalidade em pessoas infectadas pelo coronavírus, Wanderson afirma que entre os pacientes que desenvolvem resultados graves, o sistema imunológico pode reagir exageradamente, produzindo uma “tempestade de citocinas”, uma liberação de sinais químicos que instruem o corpo a atacar suas próprias células. Segundo ele, o padrão de casos críticos é alarmante porque não são apenas pessoas com fatores de risco aparentes, como tabagismo e doenças crônicas que ficam gravemente doentes, são também algumas pessoas jovens e aparentemente saudáveis.

“A pessoas acima de 60 anos têm maior probabilidade de morrer como resultado de insuficiência pulmonar, derrames, ataques cardíacos e outros problemas desencadeados por infecções por coronavírus, enquanto indivíduos mais jovens têm muito menos probabilidade. Estimativas recentes sugerem eu a taxa global de mortalidade do coronavírus é de cerca de 1%, mas pode variar de 0,4% a 3,6%”.

Medicamentos
Wanderson destaca que, até o momento, não existe tratamento específico para o coronavírus ou seus sintomas. No entanto, 17 tratamentos principais estão sendo testados. “Uma droga mais promissora é o remdesivir, um produto químico antiviral experimental aprovado pela FDA para uso emergencial em 1º de maio. Dados do National Institutes of Health sugerem que o remdesivir ajudou pacientes com coronavírus a se recuperarem mais rapidamente. Milhares de pacientes foram tratados com a droga através de ensaios clínicos e programas de acesso expandido”.

Ainda de acordo com o enfermeiro, ensaios clínicos também mostram que a dexametasona pode reduzir as mortes em pacientes com Covid-19 gravemente enfermos. “Mas ainda não é possível afirmar que esses medicamentos são efetivos”, pontuou.

Vacinas
Mais de 21 vacinas contra o coronavírus estão em desenvolvimento na fase clínica e, de acordo com o epidemiologista, a mais promissora é uma vacina RNA mensageiro (mRNA) desenvolvida pela empresa de biotecnologia. A empresa foi a primeira a publicar resultados iniciais em seres humanos depois de iniciar seu primeiro teste em 116 de março. O objetivo é iniciar um teste de eficácia em estágio avançado com 30 mil pessoas em julho.

Ele destaca a importância de ter uma vacina brasileira. “É fundamental fortalecer o Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz que são muito competentes e capazes de realizar o desenvolvimento dessa vacina”.

Protagonismo do SUS e da enfermagem
O protagonismo do Sistema Único de Saúde e da enfermagem no enfrentamento da pandemia também foi destaque na fala do Wanderson. “Vamos sair dessa pandemia com esses dois protagonistas. O que faz a diferença é o cuidado e ele é sinônimo da enfermagem, que está no seu melhor momento e muito bem preparada. A enfermagem tem caráter agregador, destaco também a importância das outras profissões. Vamos sair mais fortalecidos. Mas cabe aos enfermeiros buscar o posicionamento social, lutar pelas nossas causas. Temos uma visibilidade neste momento que deve ser muito bem aproveitada”, finalizou.