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Pesquisa analisa a prática de enfermeiros da equipe da Estratégia Saúde da Família em comunidades quilombolas

A prática de enfermeiros em comunidades quilombolas será efetiva quando construída nas relações, dentro do contexto social, por meio do (re)conhecimento das questões sociais e culturais, bem como as formas de vida de indivíduo/família/coletividade. Esse é um dos resultados apresentados pela tese de doutorado “Prática de enfermeiros da equipe da Estratégia Saúde da Família em comunidades quilombolas sob o prisma da ética feminista”, desenvolvida pela enfermeira e pesquisadora Lilian Cristina Rezende, com orientação da professora Maria José Menezes Brito, do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem da UFMG.

A coleta de dados foi realizada no período de fevereiro a junho de 2018 e se deu por meio de entrevista individual, entrevista coletiva e observação. O cenário foi a Estratégia Saúde da Família em cinco municípios da região metropolitana de Belo Horizonte-MG. O estudo contou com a participação de sete enfermeiros e 59 quilombolas pertencentes às comunidades de Arturos, Marinhos, Ribeirão, Sapê, Açude, Mato do Tição, Pimentel. Houve também conversas com as líderes das comunidades Mangueiras, Luizes e Manzo Ngunzo Kaiango. “As reflexões sobre valores morais se apresentam na complexidade do trabalho do enfermeiro, que devem considerar os valores daqueles a quem prestam o cuidado. Parte-se do pressuposto de que o enfermeiro conduz sua prática considerando a diversidade cultural e sócio-histórica da população, uma vez que os modos de viver incorporam diferentes sentidos e significados de saúde”, relata Lilian Rezende.

sapeLílian com a comunidade de Sapê

Os resultados indicaram que as características dos quilombos são muito vinculadas à união familiar, as quais envolvem expressões/manifestações cultural (música, dança) e religiosa dos antepassados, associadas à escravidão e à afrodescendência. “As comunidades afrodescendentes visitadas apresentam uma construção estrutural em que suas as casas estão localizadas próximas dos parentes, confirmando as características marcantes pela formação de parentesco.Algumas comunidades têm em seu território uma igreja outras tem em um salão comunitário com imagens de personalidades importantes para eles que remete a forte relação com a religiosidade de matriz africana que é compartilhada entre os membros.

Durante encontros com as líderes da comunidade, percebi que elas valorizam o aprendizado passado dos pais para os filhos, a sabedoria dos anciãos, bem como a história do seu povo e, assim, influenciam o grupo pela dedicação a sua história a manter viva a memória dos antepassados”, explica.

Este estudo apontou a existência de barreiras no cotidiano da ESF, prejudicando o desenvolvimento da prática pelo enfermeiro, principalmente, na efetivação do cuidado às comunidades quilombolas. Dentre elas, destacaram-se: alta demanda; sobrecarga de trabalho; falta de infraestrutura para desenvolver atividades de prevenção de agravos e promoção da saúde, bem como para as consultas de enfermagem nas diversas fases da vida. Uma particularidade apontada nesse estudo foi o distanciamento geográfico das comunidades rurais com a unidade de saúde, queconfigura-se no cenário pesquisado como ESF, impactando diretamente na qualidade do acesso e do cuidado.

Foi evidenciado também que há dificuldades em manter viva a cultura e a tradição nos grupos, uma vez que as rupturas religiosas e as diversidades de pensamento sobre as formas de vida extrapolam o contexto das Comunidade Remanescente de Quilombola (CRQ). A pesquisadora dá destaque para outra dificuldade que observou. “Outra adversidade percebida nas visitas às unidades foi que os enfermeiros se dedicam menos a assistência do que gostariam, realizando em grande parte do tempo atividades burocráticas e de ordem organizacional. Nesse contexto, o enfermeiro, muitas vezes, não consegue por questões institucionais exercer uma assistência de forma crítica e reflexiva, não encontrando meios de realizar sua prática de forma transformadora”.
A moralidade no contexto das Comunidades Quilombolas
Tradição, valores, expressões e manifestações culturais são aspectos que conformam e fortalecem a configuração dos quilombos, são importantes interpretações da vida moral e dão visibilidades e legitimidade as interpretações e características dos grupos sociais. O estudo evidenciou que a formação da comunidade associada a origem afrodescendente está vinculada ao parentesco, como a unidade de perpetuação da comunidade, sendo uma comunidade família, origem, lugar e memória na conformação da identidade afrodescendente. “Para os quilombolas, pertencer à comunidade é motivo de orgulho, de rememorar a história dos antepassados e de manter viva sua luta. As CRQ compõem a diversidade de origens e histórias do povo brasileiro, enfatizando elementos da identidade cultural e da continuidade histórica afrodescendente ao longo das gerações”, relata Lilian.

O vínculo entre pessoas da comunidade estimula o retorno às origens e potencializa o sentimento de pertencimento e de orgulho de suas raízes. Nesse sentido, foi observado durante o estudo que a origem afrodescendente associada às manifestações culturais compõem a moralidade no contexto das comunidades estudadas, estando ligadas à música e à dança associadas à religiosidade. Os participantes citaram o Congado, Moçambique e o Candombelé como festas apreendidas dos antepassados, associadas à afrodescendência e à escravidão, ambas são preservadas em um ciclo de continuidade. Também foram pontuadas festas católicas, revelando a diversidade cultural em que as comunidades são formadas.

A cultura no contexto das comunidades quilombolas refere-se à tradição de um grupo social que é passada de geração para geração. “Ao mencionarem a participação das crianças nas festividades é possível perceber que os adultos do quilombo buscam estimulá-las a conhecer e participar. Eles entendem que a participação das crianças e jovens fortalece e mantém viva a tradição e reconhecem que são momentos importantes para a comunidade”, explica a pesquisadora.

Prática de responsabilidade do enfermeiro
A análise desta categoria pautou-se no reconhecimento da prática do enfermeiro na Estratégia Saúde da Família (ESF), construída no encontro do indivíduo, família e coletividade; no fortalecimento das relações interpessoais de vínculo e no respeito e valorização da cultura, dos valores e dos modos de vida das pessoas. Entende-se que essa prática se revela nas relações, em um contexto permeado pela moralidade que lhe é própria, que se destaca a cultura, a tradição e a história quem compõe aquele grupo, sendo diferente para cada grupo.

Os enfermeiros, ao conhecerem a realidade da comunidade, constroem a prática apropriada para cada contexto, não reproduzindo o prescrito, mas considerando os limites e os modos de vida com vista a propiciar transformações nas condições de saúde. “Para construir a prática no encontro efetivo, o enfermeiro precisa conhecer aqueles que participam da prática, isto é, os usuários e a família. Alguns participantes buscam conhecer a realidade social e cultural da comunidade adscrita na ESF e o cuidado é delineado em consonância com cada situação apreendida”, relata a enfermeira.

De acordo com Lílian, o acolhimento é um importante momento de comunicação efetiva entre os profissionais e os usuários, fortalecendo o vínculo entre eles e propiciando o cuidado compartilhado, com tomadas de decisões que favoreçam o protagonismo do quilombola. Os profissionais de enfermagem inseridos na ESF entendem sua importância na equipe para a realização do cuidado, lidando com fatores dificultadores da implementação e da qualidade de suas ações. “Uma das dificuldades apontadas, tanto na visão dos enfermeiros como de usuários, foi o distanciamento geográfico da unidade de saúde com a comunidade, podendo comprometer a qualidade do acesso e do cuidado. Tal comprometimento, na visão do enfermeiro, se dá por não conseguirem prestar o cuidado integral”.

As limitações institucionais e organizacionais das unidades de saúde na APS comprometem a garantia do cuidado prestado pelo enfermeiro, uma vez que a atuação deste profissional se concretiza por meio do atendimento de demandas agudas com o estabelecimento de prioridades, por não conseguir atuar de forma mais próxima da população em áreas rurais. Para minimizar a dificuldade apresentada, segundo a pesquisadora, os enfermeiros lançam mão de estratégias, como a realização de atendimento em estrutura física satélite, semanalmente ou quinzenalmente. Porém, esse modo de organização do atendimento não tem se mostrado suficiente para atender às necessidades da comunidade.

O enfermeiro no seu cotidiano está limitado à forma de organização do serviço de saúde, especialmente no que se refere ao acolhimento e não consegue extrapolar essa dificuldade apresentada. “A realidade da demanda do serviço distancia o enfermeiro de sua prática emancipatória e torna-se reducionista, uma vez que desloca o enfermeiro para o atendimento focado nas urgências, impossibilitando a amplitude assistencial como potência de coordenação do cuidado e de melhorarias na saúde da população”, relata Lilian.

Ela ressaltou, ainda, que a enfermagem também precisa ser amparada por diretrizes e políticas públicas. “Cabe aos profissionais e gestores a identificação de necessidades do território para criar estratégias e executar políticas públicas e, principalmente, criar alternativas quando essas políticas não forem adequadas para determinados contextos. Cabe destacar também o papel que a gestão possui no sentido de induzir e priorizar políticas públicas de acordo com as necessidades do território. Muitas políticas setoriais foram produzidas, porém o volume de trabalho sobrecarrega os enfermeiros para executar todas as ações programáticas previstas. Nesse sentido, existe uma sobreposição das políticas dificultando que os enfermeiros as assumam em sua agenda. Percebemos que os profissionais realizam as atividades de forma pouco reflexiva diante da limitação que eles encontram no seu cotidiano, sem que haja questionamento acerca das diversas situações que envolvem a realidade, distanciando-os das relações no contexto social”.

Lílian pontua quequando oenfermeiro atua em grupos minoritários precisa adquirir competências alicerçadas em valores e crenças, aliadas ao conhecimento científico e à experiência profissional, bem como incorporar o usuário, família e coletividade no contexto da ESF, para superar as barreiras e dificuldades cotidianas. “Muitas vezes, os enfermeiros não conseguem apreender o contexto das comunidades de modo a compartilhar responsabilidades com o cuidado em saúde e também na formação cidadã do sujeito. Percebeu-se que eles compreendem o potencial transformador de sua prática, mas são limitados diante da incapacidade política grupal dos enfermeiros mudarem suas condições e organização do trabalho”, conclui.

Contribuições para a área da enfermagem, saúde ou política pública
Lílian destaca que esse estudo pode contribuir para o aprofundamento do conhecimento da prática do enfermeiro em comunidades quilombolas para atuação em consonância às condições de saúde da população. Além disso, ressalta a importância deste aprofundamento para a concretização de ações coletivas que visem o alcance de princípios e diretrizes do SUS, bem como de políticas específicas voltadas para o atendimento da população negra. Por entender a importância da prática do enfermeiro neste cenário, este estudo pode contribuir para o desenvolvimento científico no campo da enfermagem.

Segundo ela, é preciso que haja verdadeira inclusão dos quilombolas nas tomadas de decisão de modo a construir relações sólidas, compromissadas na transformação de uma sociedade. “A comunidade quilombola é fruto da história, apresentando em contínua elaboração, ressaltando a afrodescendência, na constante luta e perpetuação de uma cultura própria entrelaçada pelos laços de parentesco. Nesse contexto, faz-se necessário que o enfermeiro da Estratégia Saúde da Família, alicerçado por uma formação política e cultural e em conjunto com a equipe, trace estratégias que minimizem as dificuldades encontradas na concretização de ações de saúde para essa população, ancorados nas políticas públicas inclusivas, principalmente àquelas destinadas aos grupos vulneráveis socialmente”, finaliza Lilian.
Redação: Vívian Mota - estagiária de jornalismo
Edição: Rosânia Felipe- Jornalista