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Opinião: Alimentação, comensalidade e isolamento social

A alimentação é de todas as atividades humanas a que reflete de modo mais impressionante a nossa natureza biológica e cultural. Cada alimento contém além de seus nutrientes biológicos, um conteúdo de significados de ordem social, econômicae cultural. Deste modo, os alimentos contém nutrientes vitais para a sobrevivência do homem incluindo as vitaminas, proteínas e minerais, mas assumem também uma função social fundamental.A comida alimenta, portanto, a fisiologia do corpo assim como a identidade dos indivíduos. Tal identidade refere-se às aos costumes, as crenças e as situações de vida dos sujeitos, expressas através deseus hábitos e práticas alimentares.

A comensalidade, por sua vez, representa uma dimensão humana fundamental que diz respeito ao “comer coletivamente”, ou seja, ao “comer junto”. O conceito surgiu na época dos hominídeos, quando eles se reuniam ao redor do fogo para se alimentar. O domínio do fogo permitiu a transformação do alimento cru para o cozido dando origem à cozinha e refere-se à passagem do homem da sua condição biológica, natural para a condição sociocultural.Ela representa uma característica essencialmente humana de interagir e integrar-se em sociedade.

A alimentação e a comensalidade são dimensões que passaram por transformações importantes ao longo da história do homem. Nas sociedades contemporâneas a relação do homem com a alimentação foi ressignificada assumindo novas características e configurações. Fazendo surgir uma “nova ordem alimentar” composta por novos comensais com novos comportamentos. Deste modo, podemos dizer que o comensal contemporâneo é um indivíduo muito mais autônomo em suas escolhas, substituindo cada vez mais o seu comportamento alimentar social por condutas alimentares individuais, ou seja, com menos formalidades do que antes. Hoje temos maior liberdade de escolha e maior poder de decisão. Podemos nos alimentar de várias formas: sozinhos ou acompanhados, a qualquer hora do dia, sem sentar-se à mesa, no trabalho, na academia ou até na rua. Podemos, portanto, decidir e eleger nossas preferencias frente a uma variedade de opções. Assim, se anteriormente a alimentação era regidas por normas convencionais e bem estruturadas dentro das “sociedades gastro-nômicas”, atualmente ela é desprovida de leis e normas ou essas regras estão desaparecendo pouco a pouco nas “sociedades gastro-anômicas”.

A alimentação dos indivíduos e das famílias mudou radicalmente!O tempo dedicado às refeições é cada vez menor; omitem-se refeições e preparações; as horas são irregulares; come-se depressa em frente da televisão ou da tela do celular. A alimentação não mais estrutura o tempo, mas o tempo estrutura a alimentação, sobretudo o tempo do trabalho. Mediante a nova valorização do tempo e das pressões sociais e do trabalho aumenta o recurso às refeições fora dos domicílios nos restaurantes comerciais e institucionais;fast-foods;nas cantinas escolares, nos bares, cafés,padarias, entre outros locais onde se comercializa alimentos.
A pandemia do Covid-19 impôs uma nova realidade a todos nós: o isolamento social. E, se antes nos faltava tempo para o exercício da comensalidade, hoje podemos exercê-la com mais consciência e atenção.Trata-se de uma boa oportunidade para refletirmos sobre a nossa alimentação, incorporando novas práticas e resgatando tradiçõesculturaisque estão sendo perdidas. Como disse o antropólogo Lévi-Strauss1 a comida não é boa somente para comer, mas também para pensar. Ela nos convida à reflexão! E esse é um bom momento para refletirmos sobre nossaspráticas alimentares. Quanto tempo e atenção você tem dedicado a sua alimentação e a de sua família? Onde costuma realizar as suas refeições e com quem? A alimentação na sua casa tem proporcionado prazer, convívio e bem estar? Você conhece a origem e os ingredientes presentes nos alimentos que consome?

Omaior tempo em casa pode sim, trazer inúmeros benefícios para a nossacomensalidade. Além de favorecer a reflexão temos a oportunidade de ampliar o nosso repertório alimentar, desenvolvendo habilidades culinárias, resgatando tradições e receitas familiares, realizando as refeições em família e criando momentos preciosos para o fortalecimento dos laços entre as pessoas. Trata-se de um tempo precioso para todas as idades propiciando um importante exercício de convivência, partilha, entretenimento edescobertas culinárias!

A comensalidade é uma dimensão descrita no “Guia Alimentar para a População Brasileira” publicado pelo Ministério da Saúde e traz 3 orientações básicas que contribuem para práticas alimentares saudáveis. São elas:
1) Comer com regularidade e com atenção: realize as refeições diárias em horários semelhantes e evite “beliscar” nos intervalos entre as refeições. Coma sempre devagar e desfrute o que está comendo, sem se envolver em outra atividade. Telefones celulares sobre a mesa e aparelhos de televisão ligados devem ser evitados. Aproveite para sentir o sabor dos alimentos, a textura, o aroma. Faça das refeições um momento de prazer! Refeições feitas em horários semelhantes todos os dias e consumidas com atenção e sem pressa favorecem a digestão dos alimentos e também evitam que se coma mais do que o necessário. Os mecanismos biológicos que regulam nosso apetite são complexos, dependem de vários estímulos e levam certo tempo até sinalizarem que já comemos o suficiente. Em outras palavras, comer de forma regular, devagar e com atenção é uma boa maneira de controlar naturalmente o quanto comemos. Muitas vezes, a necessidade de comer a qualquer hora, ou “beliscar”, surge ou se torna mais forte quando somos estimulados visualmente pela presença do alimento, sobretudo os ultraprocessados (guloseimas e salgadinhos “de pacote”). Portanto, é recomendável evitar ter esses produtos ao alcance da mão. Boas opções são: frutas frescas ou secas e castanhas ou nozes.
2) Comer em ambientes apropriados: procure comer sempre à mesa, em local limpo, confortável e tranquilo. As características do ambiente onde comemos influenciam a quantidade de alimentos que ingerimos e o prazer que podemos desfrutar da alimentação já que elas ajudam a nos concentrar no ato de comer e convidam a que se coma devagar. Permite que os alimentos e as preparações culinárias sejam apreciados adequadamente, contribuindo para que não comamos em excesso. Além disso, as pessoas tendem a comer mais que o necessário quando estão diante de grandes quantidades de alimentos ou quando há oferta de grandes porções. Sirva-se apenas uma vez.
3) Comer em companhia:Sempre que possível, prefira comer na companhia de familiares. Procure compartilhar também as atividades domésticas que antecedem ou sucedem o consumo das refeições. Seres humanos são seres sociais e o hábito de comer em companhia está impregnado em nossa história, assim como a divisão da responsabilidade por encontrar ou adquirir, preparar e cozinhar alimentos. Compartilhar o comer e as atividades envolvidas neste ato é um modo simples e profundo de criar e desenvolver relações entre pessoas. Refeições compartilhadas feitas no ambiente da casa são momentos preciosos para cultivar e fortalecer laços entre pessoas que se gostam. Para as crianças e adolescentes, são excelentes oportunidades para que adquiram bons hábitos e valorizem a importância de refeições regulares e feitas em ambientes apropriados. Para todas as idades, propiciam o importante exercício da convivência e da partilha.

Como se verá, os benefícios da adoção dessas orientações são vários, incluindo melhor digestão dos alimentos, controle mais eficiente do quanto comemos, maiores oportunidades de convivência com nossos familiares e, de modo geral, mais prazer com a alimentação. Mais informações sobre o Guia Alimentarconsulte o link:https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf

Por: Vanessa Ferreira- Doutora em Ciências Sociais pela Fundação Oswaldo Cruz e Professora do Departamento de Nutrição da Escola de Enfermagem da UFMG.

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Referências:
1 Lévi-Strauss C. O cru e o cozido. In: Mitológicas I. São Paulo: Cosac Naify. Brasil, 2004.
2 Contreras J, Gracia M. Alimentação, sociedade e cultura. RJ: editora Fiocruz, 2011.
3Fischler C. Gastro-nomie et gastro-anomie: sugesse du corps et crise bioculturelle de l’ alimentation moderne. Communications, 31:189-210, 1979.
4Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – 2. ed., 1. reimpr. – Brasília : Ministério da Saúde, 2014.