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Opinião: É possível pensar em qualidade de vida no trabalho da enfermagem em tempos de coronavírus?

Imersas no imenso desafio de enfrentamento da pandemia pelo novo Coronavírus, SARS-CoV2, também denominado Covid-19, como docentes e profissionais de enfermagem, temos a oportunidade e possibilidade de promover reflexões importantes sobre o processo de trabalho e as relações interpessoais na enfermagem. Neste momento de crise, apoiadas em diferentes e profundas vivências de trabalho na área da saúde, urge sonhar, criar utopias, projetar um futuro desejável e melhor para a população brasileira e para os profissionais de enfermagem.

Destaca-se que o contexto de trabalho desses profissionais é marcado por vivências de dor, sofrimento e morte, associados a ritmos intensos de trabalho, jornadas prolongadas, trabalho em turnos, baixos salários, relações humanas complexas, falta de materiais e de recursos humanos, constituindo fatores estressores que podem levar ao adoecimento. Apesar do que se conhece hoje sobre o processo de adoecimento laboral, ainda parece não ser o suficiente para sensibilizar de forma significativa os governantes, e os gestores dos serviços de saúde, para que programem ações efetivas que garantam qualidade de vida no trabalho (QVT) dos profissionais de enfermagem.

Em uma perspectiva ousada, iniciamos a nossa reflexão a partir da declaração da Organização Mundial da Saúde (OMS) que estabeleceu o ano de 2020 como o “Ano da Enfermagem”. Nessa perspectiva, foi lançada uma campanha mundial denominada NursingNow, em parceira com o Conselho Internacional de Enfermagem e os órgãos de classe de diversos países. Talvez em um ato pensado fomos provocadas a fazer essa reflexão frente à essa campanha global e ao cenário internacional do Covid-19, com a intenção de sensibilizar os governantes e a sociedade sobre a importância desta profissão, para além da pandemia.

Sabemos que, nesse momento, falar em QVT na Enfermagem parece ser apenas proferir um discurso utópico. Mas, não é possível nos refugiarmos apenas no pragmatismo do cotidiano, esperando a tempestade passar. Não podemos perder a oportunidade histórica, precisamos nos tornar protagonistas de reflexões que tenham um potencial provocativo e transformador do processo de trabalho e das relações humanas na enfermagem.

Quase dois milhões e meio de trabalhadores de enfermagem no Brasil não conseguem dar visibilidade e conquistar dignidade adequada para a essencialidade do seu trabalho. Dentre as profissões de saúde que tem presença na maioria dos serviços, a Enfermagem é a única sem jornada de trabalho definida, regulamentada em lei nacional.

Além disso, no Brasil, pesquisas mostram as condições desfavoráveis para a prática de enfermagem, com forte incidência de desgaste dos trabalhadores comprometendo sua saúde e bem-estar, além da qualidade da assistência aos pacientes. As condições de trabalho ou a falta destas, talvez seja a face mais expressiva da baixa valorização da profissão.

Na literatura, autores ressaltam que a valorização humana, bem como a criação de oportunidades de desenvolvimento pessoal, tendo em vista as capacidades e potencialidades do trabalhador, favorece a qualidade de vida no trabalho. Desse modo, o fortalecimento da identidade profissional e a valorização da enfermagem dentro dos serviços, nas instituições de ensino, nos espaços da sociedade e por que não na mídia televisiva e jornalística torna-se essencial e importante ponto de reflexão.

No entanto, antes de mais nada, é preciso acolher esses profissionais, abrir um espaço de escuta para conhecer as suas reais necessidades e expectativas. Podendo ser traduzidas na forma de salários mais altos, valorização profissional e promoções, ou de forma mais prática, em decorrência do novo Coronavírus, como necessidade de equipamentos de proteção individuais adequados, estrutura física segura para o desempenho das atividades, melhor dimensionamento de pessoal e delineamento de fluxos de atendimento, cooperação para o trabalho em equipes e apoio das lideranças.

Não seria esta pandemia o cenário perfeito para a Enfermagem comprovar ao mundo a sua força, o seu trabalho e a sua importância para a vida da humanidade?

A Enfermagem para ser protagonista da sua história, além de um “Ano comemorativo”, precisa de reconhecimento diário, lideranças pró-ativas, representatividade nos mais altos cargos gerenciais e políticos, a fim de constantemente renovar a sua força como profissão.Façamos dasuperação da Covid-19 a nossa missão, o nosso holofote frente ao mundo e que a sociedade consiga nos enxergarcom o devido valor quando tudo isso passar.

Por: Márcia dos Santos Pereira, Enfermeira, professora da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais; Nátalia Gherardi Almeida, Enfermeira,, Consultora em gestão e saúde corporativa, Carolina Teixeira Cunha, Enfermeira do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais; Letícia Gonçalves Figueiredo, Enfermeira do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais e Carla Aparecida Spagnol, Enfermeira, professora da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais

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Referências:
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2. Machado, MH. et al. Condições de trabalho da enfermagem. Enfermagem em Foco, [S.l.], v. 7, p. 63-71, jan. 2016. ISSN 2357-707X. Disponível em: . Acesso em: 01 abr. 2020. doi:https://doi.org/10.21675/2357-707X.2016.v7.nESP.695.
3. Carvalho, DP et al. Cargas de trabalho e a saúde do trabalhador de enfermagem: revisão integrativa. CogitareEnferm. 2017 Jan/mar; 22 (1): 01-11.
4. Chiroli, DMG; Ritter, GJ; Lucio, TB. Identificação da qualidade de vida e qualidade de vida no trabalho de profissionais da área da saúde: estudo de caso em uma Unidade Básica de Saúde do Município de Ponta Grossa. Rev. UNINGÁ, Maringá, v.55, n.1, p.177-194, jan./mar. 2018. Disponível em: Acesso em: 09 jul. 2019.
5. Martins, CS. et al. Fatores Motivacionais que influenciam no desempenho dos colaboradores no ambiente de trabalho. Id on Line Rev. Mult. Psic., v.11, n.39, p.262-281, ISSN 1981-1179, 2017. Disponível em: Acesso em: 06 jul. 2019.