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Desertos e Pântanos Alimentares são discutidos em mesa-redonda

Para discutir sobre o ambiente, o modelo alimentar vigente e as características dos alimentos ultraprocessados foi realizada uma mesa-redonda nesta segunda-feira, 11 de novembro, no auditório Laís Netto da Escola de Enfermagem da UFMG.

milene pessoaA atividade foi moderada pela professora Milene Cristine Pessoa e contou com a participação da jornalista Desirée Rodrigues Ruas, uma das criadoras do movimento BH e do Núcleo da Aliança pela Alimentação Adequado e Saudável em Minas Gerais; das nutricionistas e professoras da EEUFMG, Larissa Loures Mendes e Paula Martins Horta; do jornalista e um dos criadores do site O Joio e O Trigo, especializado em investigações sobre alimentação, João Peres e do Assistente Social, Conselheiro do Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de Minas Gerais (CONSEA-MG), Leonardo Koury Martins.

Desertos e Pântanos Alimentares foram abordados pela professora Larissa Mendes. Segundo ela, os desertos alimentares são definidos como locais das cidades com pouca ou nenhuma oferta de alimentos saudáveis e geralmente estão nas áreas mais pobres das cidades. Isto ocorre, em grande parte, devido à falta de estabelecimentos que fornecem alimentos saudáveis.

A professora destacou que os estudos internacionais consideram os supermercados como estabelecimentos que oferecem melhor qualidade, variedade e preço dos alimentos, tempo maior de funcionamento e opções de estacionamento, contudo para o Brasil essa hipótese deve ser melhor investigada. As características que contribuem para a existência de desertos alimentares são o nível socioeconômico da vizinhança, a distância de estabelecimentos saudáveis e o uso de veículos para acessar esses estabelecimentos.

Os Pântanos Alimentares se referem “à exposição excessiva a estabelecimentos que comercializam alimentos não saudáveis em comparação com estabelecimentos que comercializam alimentos saudáveis”. "Os pântanos são também caracterizados como ambientes com grande estímulo ao consumo desses alimentos, como restaurantes do tipo fast food, que oferecem porções extras, ou ainda, áreas com forte apelo de marketing e propaganda de alimentos não saudáveis", explicou.

A publicidade de alimentos no Brasil foi abordada pela professora Paula Horta. Segundo ela, a comunicação mercadológica é qualquer forma de comunicação comercial que tem como propósito ou efeito aumentar o consumo, a aquisição, o desejo por um produto ou serviço.

Sobre a Publicidade televisiva de alimentos, ela destacou 1.156 (14,16%) anúncios relativos à alimentos; (media: 0,89 anúncios por canal por hora). Nas redes sociais, em 2015, entre as 250 páginas de Facebook mais curtidas pelos brasileiros, 16 páginas são de empresas de alimentos e todas de ultraprocessados. “O quanto estamos expostos à publicidade de alimentos saudáveis e não saudáveis no país?”, questionou Paula.

João Peres falou sobre desigualdade alimentar, pensando em vários aspectos além da renda e da emergência do sistema alimentar como um todo. “Esse sistema vem se perdendo de maneira muito acelerada, com predominância de ultraprocessados, da perda do consumo de alimentos in natura e da produção de vários alimentos tradicionais como arroz e feijão”, destacou.

Ele explicou, ainda, que o joio e o trigo não é um site sobre como comer (bem ou mal), nem sobre dietas da moda. “Tampouco queremos repercutir a última pesquisa provando que o alimento X provoca o efeito Y em nosso organismo. E, menos ainda, difundir ingredientes milagrosos. Esse é um projeto sobre comer como ato político, com profundas implicações sociais, econômicas e ambientais”.

IMG 0469A mesa-redonda contou também com a participação de professores e alunos

Leonardo Koury fez um panorama do que discutem enquanto CONSEA-MG com o Estado sobre o direito humano à alimentação adequada, políticas de segurança alimentar nutricional e como o investimento do Estado pode garantir o fim de desertos e pântanos alimentares e ampliar a oferta de alimentação saudável para a população mineira.

A jornalista Desirée Ruas destacou sobre a importância de pensar nos direitos da infância no contexto da alimentação, reforçou que a cidade precisa oferecer opções saudáveis e lembrou da questão do ambiente escolar. “Estamos muito preocupados com a suspensão do Decreto nº 47.557, de 10 de dezembro de 2018, que regulamenta a Lei N 15.072, de 5 de abril de 2004 que dispõe sobre a promoção da educação alimentar e nutricional nas escolas públicas e privadas do sistema estadual de ensino e dá outras providências. Esse Decreto é muito importante para termos o entorno das escolas mais saudável”, pontuou.

Ela enfatizou, ainda, sobre a falta de opção de alimentação saudável e a pressão do marketing sobre as famílias associadas ao lazer e para o comer não saudável. “É importante pensar em uma política pública ligada com o estar na cidade. Ela tem condições de nos dar opções de alimentação saudável, de lazer e da relação com os espaços públicos. Precisamos reivindicar isso”.

Desirée concluiu que as pesquisas desenvolvidas nas universidades permitem que a sociedade entenda que são um alerta para mudarmos de atitude sobre esse contexto do deserto e pântano alimentar, índices de obesidade, de doenças crônicas, sobretudo na infância.

Exposição
Letras miúdas ou escondidas, ingredientes misteriosos, tabelas de informação nutricional confusas: entender o que está nas embalagens de alimentos ultraprocessados é uma tarefa difícil. Mas quem passar pelo campus Saúde entre os dias 18 e 21 de novembro, poderá conferir, por meio da exposição fotográfica “O Joio no Rótulo”, a quantidade de açúcar em vários alimentos e alguns aspectos dos produtos mais vendidos no país que não ficam claros no rótulo. "A partir de fotos de alta qualidade, expõe o que um produto é, de verdade, sem o marketing que o envolve. Organismos internacionais como a Organização Mundial da Saúde e a Organização Panamericana de Saúde reconhecem o rótulo como uma ferramenta útil para orientar os consumidores nas melhores escolhas alimentares e, consequentemente, contribuir para conter o crescimento de doenças relacionadas à alimentação não saudável", explicou a professora Milene.

A exposição é organizada pelo projeto brasileiro de jornalismo O Joio e o Trigo, que investiga exclusivamente a alimentação e suas implicações políticas, em parceria com o Departamento de Nutrição da Escola de Enfermagem da UFMG.