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20 anos de atuação do Internato Rural de Enfermagem são celebrados com simpósio

abertura simposio1Para comemorar os 20 anos da disciplina "Estágio curricular: Atenção Primária à Saúde", mais conhecida como Internato Rural, professores, ex-coordenadores da disciplina, alunos, ex-alunos, prefeitos e representantes dos diversos municípios parceiros se reuniram durante dois dias em um simpósio realizado na Escola de Enfermagem da UFMG.

Descrito pela diretora da Escola de Enfermagem, professora Sônia Maria Soares, como “uma experiência ímpar e singular”, o Internato Rural teve início em 1998 com o nome de ‘Estágio Curricular I’. O professor Francisco Carlos Félix Lana, atual coordenador da disciplina, explica que durante o internato os estudantes vão para os municípios do interior ou Centros de Saúde da região metropolitana e têm a vivência prática da enfermagem voltada à Atenção Primária à Saúde (APS), com supervisão de um enfermeiro do serviço e de um docente da Escola. “Os alunos são inseridos na Equipe de Saúde da Família, supervisionados por enfermeiros e desenvolvem as rotinas de atendimento de enfermagem nos cuidados de enfermagem, trabalhando, também, na área de vigilância epidemiológica, controle de doenças crônicas e infecciosas”, completa.

Na disciplina obrigatória do 9º período do Curso de Graduação em Enfermagem, os estudantes, além de cumprir o período de quatro meses de estágio, devem, ao final, apresentar um projeto de intervenção no cenário de prática. “Os serviços e os projetos de intervenção são escolhidos para procurar atender determinadas necessidades organizativas do serviço, protocolos ou fluxo de processo de trabalho, os alunos fazem as intervenções no sentido de melhorar a qualidade da atenção à saúde”, comenta o professor Francisco. No simpósio de 20 anos foram expostos e avaliados os pôsteres resultados desse trabalho.

De acordo com o coordenador da disciplina, o estágio requer esforço dos alunos, mas, também, por parte da coordenação e dos docentes, demandando resoluções de vários desafios. “O internato tem vários aspectos que carecem de uma atenção muito redobrada, porque manter alunos no interior exige estratégias organizativas muito bem feitas como a supervisão do professor, a questão dos transportes, da acomodação, do convênio, renovação e a avaliação. São processos bem complexos, mas que eu acho que valem a pena porque são desafios para construir uma experiência realmente significativa para os alunos e também para as comunidades e serviços de saúde”, afirma.

Duas décadas de histórias e experiências
Virginia Pastor, professora aposentada da Escola de Enfermagem há 18 anos, foi a primeira coordenadora da disciplina e esteve junto ao projeto desde o seu planejamento em 1997. “O maior desafio que nós tivemos à época da implementação foi conseguir montar um projeto coletivo, porque o Internato Rural, que naquela época se chamava 'Estágio Curricular I', perpassava o conhecimento dos três departamentos existentes e que tinham um trabalho muito fragmentado”, conta Virgínia.

coordenadoras internatoDe acordo com ela, os primeiros municípios a integrar a disciplina no primeiro semestre de implementação foram Nova Lima, Betim, Vespasiano, Alto Caparaó, Caparaó, Coronel Xavier Chaves, Coroas, Conceição da Barra de Minas, Buenópolis, Joaquim Felício, Conceição do Mato Dentro e Pirapora.

Virgínia conta, ainda, que a adaptação dos alunos foi também uma adversidade. “O segundo maior desafio foi na relação com os alunos, porque era uma proposta nova que os tiraria da zona de conforto. São quatro meses que eles são deslocados no tempo e no espaço, assumindo responsabilidades que não tinham antes”, relata.

Apesar da dificuldade de adaptação, a professora acredita que o Internato seja muito importante na formação profissional dos alunos. “Eu acho que a grande importância do internato é que é um processo de maturação do estudante, é quase a mesma coisa que o filho quando sai de casa para viver o mundo”, compara.

Nesse mesmo sentido, a diretora Sônia Maria Soares que também já foi coordenadora da disciplina, reforça a fala de Virgínia, afirmando que o estágio é uma oportunidade de crescimento e independência do estudante. “O internato traz para os nossos alunos uma experiência de transformação acima de tudo, têm a oportunidade de se aproximar do contexto e da realidade de saúde de uma forma mais autônoma e decisiva, com oportunidade de tomar decisões em relação a todo o contexto da atenção primária”, disse.

A professora Lenice de Castro Mendes Vilela, que foi a última coordenadora antes do professor Francisco e esteve no cargo por 11 anos, reitera a fala das outras ex-coordenadoras. “A experiência do aluno é ímpar, com crescimento enquanto profissional e cidadão, com possibilidade de vivenciar com a comunidade e aquela realidade do município, diferente de Belo Horizonte”, narra.

Confirmando as falas das professoras, a enfermeira recém formada, Clarissa de Paula Silva, que concluiu a graduação no final de 2017 e realizou o internato em 2016 no município de Ferros, conta que ir para um local desconhecido foi realmente difícil. “Acho que os principal desafio foi ir para um município novo com uma população que você não conhece”, disse. Porém, Clarissa afirma que foi uma experiência de aprendizado e criação de vínculo. “É um dos melhores períodos da universidade, quando a gente tem uma imersão do que é um serviço de saúde, ficamos quatro meses ali dentro, desenvolvendo atividades de um enfermeiro e além disso a gente cria vínculo com a população”.

Fernanda ChavesFernanda Chaves fez o Internato Rural em Diogo de Vasconcelos, interior de Minas Gerais e também relatou um pouco da experiência: “Um dos períodos mais aguardados da graduação com certeza é o 9º, por causa da disciplina Estágio Curricular: Atenção Primária à Saúde (Internato Rural), que para muitos de nós é a primeira experiência fora de casa e na atuação como profissionais. O internato foi um período de muita aprendizagem, crescimento profissional, de enfrentar novos desafios, aprender a trabalhar com uma equipe até então desconhecida. Saí da minha zona de conforto e fui para uma realidade totalmente diferente da vivida durante os estágios em Belo Horizonte. Mas no final percebi que não trocaria por nada essa experiência, valeu a pena cada sacrifício pelo reconhecimento que temos da equipe, da população e de ter a oportunidade de levar a cientificidade além dos muros da universidade”

Além da experiência da aluna, os professores Ed Wilson Rodrigues Vieira e Mariana Santos Felisbino Mendes já foram alunos da Escola de Enfermagem da UFMG e fizeram o Internato Rural em São Pedro do Jequitinhonha e Ferros, respectivamente, no ano de 2006, contaram suas vivências.

Ed Wilson pontuou que foi uma das mais impactantes experiências da vida dele, não só do ponto de vista acadêmico. “Apesar de ser natural do Vale do Jequitinhonha, aquela aproximação com a realidade transformou-me de modo singular e influenciou muitas das decisões que tomei a partir de então. A importância do Internato Rural pode ser descrita de vários pontos de vista. Mas, particularmente, a que mais me chama a atenção é a sua capacidade para a integração Ensino-Serviço-Comunidade. Penso, hoje, que sou um privilegiado por ter vivido o Internato como aluno e hoje como professor, podendo compreender melhor a força dessa integração”, enfatizou.

Mariana destacou que a experiência enquanto aluna foi maravilhosa e pilar da sua formação, pois teve a oportunidade de contribuir para a consolidação do modelo da Estratégia de Saúde da Família no município de Ferros principalmente no fortalecimento do papel do enfermeiro neste contexto. “Nosso trabalho de intervenção foi a implantação do acolhimento na Unidade de Saúde. Lutamos e conquistamos um consultório de enfermagem e começamos a fazer o acolhimento e as consultas de enfermagem. Acredito que fizemos muita diferença no município e, ao mesmo tempo, crescemos como enfermeiros”. Ela enfatizou, ainda, a importância da Atenção Primária. “Como professores, buscamos que o aluno entenda o papel do enfermeiro na Atenção Primária, seu protagonismo para o fortalecimento do SUS e o cuidado integral à população, tendo em vista o conhecimento e a capacidade que esse profissional tem”.

O Simpósio
A programação do evento trouxe, além do teor de comemoração, o debate focado em Atenção Primária à Saúde no SUS através de conferências, mesas-redondas e oficinas com convidados da Escola de Enfermagem e de outras instituições.

O primeiro dia do simpósio teve a mesa de abertura composta pela diretora da Escola, professora Sônia Maria Soares, professor Francisco Lana, atual coordenador do Internato Rural, professora Cristina Gonçalves Alvim, assessora da Reitora Sandra Goulart de Almeida para a área da Saúde, Geraldo Adilson Gonçalves, Prefeito de Dom Joaquim representando as autoridades presentes, professora Elysângela Dittz Duarte, sub-chefe do Departamento de Enfermagem Materno Infantil e Saúde Pública e professora Maria Odete Pereira, coordenadora do Colegiado de Graduação em Enfermagem.

rosa godoyA professora de Enfermagem da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), Rosa Godoy, conduziu a conferência “A Enfermagem na Atenção Básica: realidades e desafios”. Ela trouxe reflexões acerca do lado social, de desigualdade social, linguagens e saberes que interferem na Atenção Básica.

A presidente da ABEn, chamando atenção para o SUS, argumenta que os desafios da Atenção Primária estão relacionados às dificuldades enfrentadas pelo sistema e a manutenção da saúde coletiva no Brasil. “Estamos enfrentando alguns retrocessos muito graves, com uma mudança de direção no sentido da privatização da saúde, por exemplo, nós não podemos perder todos os avanços que tivemos do SUS na melhoria da qualidade de vida e da saúde da população”, defendeu.

Para exemplificar os retrocessos e problemáticas relacionadas ao SUS na atualidade, Rosa comenta sobre a volta de surtos de Sarampo pelo país e o aumento nos índices de mortalidade infantil dos últimos anos. A causa defendida pela professora é da crise social, econômica e política que o Brasil enfrenta nos dias de hoje.

Visando concretizar a teoria exposta na conferência magna, já no segundo dia, a professora Rosa Godoy propôs uma oficina de trabalho que contou com cerca de 40 pessoas. “Foram discutidos dois casos verídicos para compreender questões como o atendimento prestado, as ações de enfermagem que foram realizadas e o que poderia ser feito”, explicou.

Para abrir o segundo dia, o professor Allan Claudius Queiroz Barbosa, da Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG, trouxe a conferência sobre “Agenda Política Estratégica para Atenção Primária no SUS”. Allan explanou sobre suas experiência em relação à APS, pesquisas, evidências, desafios e avanços e propôs uma agenda positiva nesse sentido.

Alguns dos desafios para a atenção primária, apresentados por Allan, são a formação adequada de profissionais, aspectos normativos e institucionais, financiamento e institucionalização de mecanismos de monitoramento e avaliação de ações e serviços. O professor afirmou na palestra que “construir uma agenda positiva capaz de dar conta de tantos desafios impõe um arranjo acadêmico diferente”.

A agenda proposta por ele é composta de seis pontos: fortalecimento de redes, continuar no esforço de geração de dados, informações e evidências, ampliar a produção acadêmica, fortalecer interações entre entidades como a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), conciliar interesses e academia lado a lado com serviços em saúde. “O nosso desafio enquanto academia é gerar e tentar levar evidências que ajudem o gestor dos municípios e de saúde como um todo”, afirmou Allan.

Logo após a conferência, a mesa-redonda com o tema “Atenção Primária à Saúde: Perspectivas das políticas, do ensino e das práticas”, contou com a presença, como palestrantes, de Ana Paula Medrado de Barcellos, Superintendente de Atenção Primária à Saúde do Estado de Minas Gerais, professor Ricardo Alexandre Arcêncio da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (USP) e da professora Kênia Lara da Silva, da Escola de Enfermagem da UFMG.

Ana Paula Medrado
Ana Paula apresentou a Política Estadual de Atenção Primária à Saúde, desde princípios às linhas de ação. Falou também sobre a Política Estadual de Promoção da Saúde, além de explanar sobre o cenário atual da APS no Brasil.
O professor Ricardo, por sua vez, buscou trazer para a mesa antecedentes históricos da Atenção Primária enquanto um modelo de atenção para a organização dos sistemas de saúde e, ainda, indicadores de desigualdade no contexto da APS. Por fim, Ricardo apresentou uma pesquisa em que é mostrada a distribuição de recursos humanos no SUS e na saúde suplementar, além de preocupações sobre os rumos da Atenção Primária à Saúde que, de acordo com ele, assume uma postura seletiva quando deveria ser destinada a toda a população.

Para fechar a mesa, a professora Kênia Lara apresentou o debate sobre dilemas, desafios e perspectiva da e para a formação em APS. “Agora mais do que no nunca”, disse Kênia sobre a necessidade da formação para Atenção Primária. De acordo com ela, isso se dá porque “historicamente o trabalhador da área de saúde não foi formado para atenção primária” e esse cenário precisa ser revertido.

Além das conferências, mesas de debate e oficinas, a programação contou com homenagens prestadas a pessoas chaves para o sucesso do Internato e um vídeo documentário com depoimentos inéditos que comentam desde o início dos trabalhos até os dias atuais, lançado durante o primeiro dia do simpósio.

apresenção dos trb. internatoForam realizados, ainda, minicursos com professoras da Escola de Enfermagem e profissionais da área. Os temas das formações foram ‘Plano de parto’, com a enfermeira obstétrica Juliana do Carmo; ‘Relação intercultural e cuidado’, com as professoras Lívia de Souza Pancrácio de Errico e Eunice Martins e ‘Enfermagem na Imunização’, com as professoras Lívia Cozer Montenegro e Sheila Ferreira Lachtim. Durante todo o simpósio, esteve exposta uma mostra fotográfica com fotos que contavam um pouco sobre as experiências do Internato, uma exposição de receitas de diversas cidades e apresentação dos trabalhos de intervenção nos cenários de práticas.

Sobre o evento, o professor Francisco concluiu: “organizar os 20 anos é uma vitória, tivemos o apoio do Programa de Apoio Integrado a Eventos da UFMG, da Escola, dos professores que participaram desse processo e isso foi muito importante. Mas sobre o simpósio, a maior conquista foi trazer para dentro do evento e da disciplina, a discussão sobre Atenção Primária à Saúde, a importância estratégica na formação e no SUS, amplificar a importância da integração da Escola com serviços, retrabalhar por meio de oficinas práticas pedagógicas e abrir a modalidade virtual de acompanhamento do aluno”.

Reconhecimentos e parcerias
“A população vê o trabalho desenvolvido, a evolução e agradece muito. Com a chegada dos estudantes na cidade, foi criado um diagnóstico no município, implantação de um protocolo, o que organizou e direcionou os trabalhos da área da saúde em Dom Joaquim”. Geraldo Adilson Gonçalves- Prefeito de Dom Joaquim, 

"A experiência é muito exitosa, com muitos aspectos positivos, o trabalho de promoção à saúde e prevenção é muito bem feito. Além disso, observo a amizade e o carinho entre os acadêmicos e pacientes, isso facilita muito o trabalho desenvolvido”. Josinei Figueiredo, Secretário de Saúde de Carmésia

servidores homanegm“O Internato tem beneficiado a Rede de saúde e assistência do município, em especial na Atenção Primária. É uma experiência muito exitosa, essa parceria traz conhecimentos da UFMG para a cidade e uma assistência mais qualificada. Parabenizo pelos 20 anos e agradeço, em nome de Conceição do Mato Dentro. Marizélia Radicchi, Secretária de Saúde de Conceição do Mato Dentro

“O internato metropolitano é uma dos melhores estágios. Além de fazer essa integração do ensino com os serviços, traz mudanças nos cenários de prática movimenta os profissionais e de fato traz um impacto positivo na assistência à saúde das pessoas.É um olhar diferente sobre a prática que está sendo executada e isso transforma o fazer". Marolina Aparecida Barroso dos Santos, gerente do Centro de Saúde Cachoeirinha de Belo Horizonte.

“O internato rural é muito importante e gratificante. Viajo com os professores e acompanho de perto o trabalho desenvolvido pela Enfermagem. É uma vivência única na formação dos alunos. Eu, como motorista, agradeço a oportunidade de fazer parte desses 20 anos e espero continuar por mais tempo”. André Luiz, motorista da EEUFMG
Expectativas
Atualmente, 9 municípios compõesm a disciplina “Estágio curricular: Atenção Primária à Saúde. “Já é um trabalho bem amplo e a gente tenta ampliar cada vez mais as possibilidades de ação”, afirmou o coordenador, Francisco Lana.

A expectativa dos alunos que ainda vão participar do Internato também é grande. A aluna do nono período, Luíza Cardoso, fará o estágio no próximo semestre no município de Sabará e, depois de ter participado do simpósio, afirmou ter expectativas de transformação. “Assisti a abertura e é emocionante ver como tem toda uma história por trás de uma disciplina e a gente vê o tanto que é importante o percurso todo dela. Eu espero entrar uma pessoa e sair outra”, conta.
Redação: Teresa Cristina– estagiária de Jornalismo
Edição: Rosânia Felipe