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Visibilidade negra em pauta: evento pioneiro na Escola de Enfermagem celebra o Dia da Consciência Negra

aberura evento visibilidadeOs marcos do primeiro dia do evento ‘Visibilidade Negra: Desafios e Perspectivas para a Equidade em Saúde’ foram os de relatos emocionados, presença e predominância de pessoas negras e falas que trouxeram pautas da vivência negra na sociedade. Entre os dias 20 a 22 de novembro, temas como a saúde da mulher negra, genocídio da juventude, acesso à saúde, entre outros; foram debatidos com a presença de uma pluralidade de palestrantes. 

A diversidade de cores podia ser vista tanto no público, como na ornamentação do Auditório Maria Sinno da Escola de Enfermagem da UFMG, local em que foi celebrado o Dia da Consciência Negra. A decoração ajudava na criação do clima de sentimento e pertencimento étinico-racial e de local seguro para que a cultura negra se materializasse.

Segundo a professora do Departamento de Enfermagem Materno Infantil e Saúde Pública, Kleyde Ventura de Souza, uma das organizadoras do evento, o protagonismo estudantil de estudantes negros foi um dos marcos importantes na organização do evento. Estudantes de Graduação e Pós-Graduação, além de algumas professoras, desde o princípio, pensaram e produziram o primeiro evento com essa temática na Escola.

O estudante de graduação em Enfermagem, Fernando Dias, integrante da “Equipe Visibilidade Negra” que esteve à frente da organização, explica que a importância da discussão da temática na Escola de Enfermagem envolve questões da formação dos profissionais em saúde, pensando no contexto em que estão inseridos. “Cerca de 80% das pessoas atendidas no Sistema Único de Saúde são autodeclaradas negras”, contextualiza. Segundo ele, é preciso entender esses determinantes sociais, tratados no evento, para um atendimento e formação de um profissional de excelência.

Fernando conta que a iniciativa do evento se deu pela necessidade enxergada de se desenvolver o estudo sobre negritude dentro da Escola e, assim, foi formada a equipe. “Queríamos nos aprofundar nos estudos desta temática, realizando algumas reuniões para discutirmos nossas experiências e algumas leituras”, relata.

Composta pela Diretora da Escola de Enfermagem, professora Sônia Maria Soares, as professoras Kleyde Ventura e Rita de Cássia e as estudantes Fernanda Alves, do 4º período da Graduação em Enfermagem, e Taisa de Paula Gonçalves, mestranda da Pós-Graduação em Enfermagem, a mesa de abertura do evento tratou sobre questões de representatividade e visibilidade negra. Em suas falas iniciais, por exemplo, as professoras relataram sobre suas vivências e como, muitas vezes, eram as únicas pessoas negras nos espaços acadêmicos, reforçando a importância de ocupar locais historicamente negados a essa parcela da população.

A programação do dia 20 contou com duas mesas de debate, “Desigualdade racial e juventude negra: direitos humanos, trajetórias escolares, mercado de trabalho e violência no Estado Brasileiro Contemporâneo” e “Saúde das Mulheres Negras: Desafios e perspectivas no contexto do SUS”, com palestrantes negras e negros. Além delas, durante o intervalo para o almoço foi realizada uma programação cultural artística com a presença do Slam Clube da Luta, uma batalha de poesia, e para o encerramento foi realizada uma confraternização com intervenção cultural com rapper Max Souza.

Diva e CaiqueA primeira mesa sobre desigualdade racial e juventude negra foi ministrada pela jornalista e cientista política, Diva Moreira, e pelo aluno de Graduação em Psicologia pela UFMG e integrante do Centro Acadêmico do curso, Caíque Belchior. Diva comentou durante o debate sobre a diversidade dos palestrantes, dizendo que Caíque seria da “Jovem Guarda” da militância, enquanto ela seria da “Velha Guarda”. A respeito disso, Fernando Dias, mediador da mesa, afirmou que “essa dualidade de experiências e diversidade de saberes se somaram a todo instante, elevando o debate e o conhecimento disseminado na palestra”.

Sobre a temática do debate, Diva Moreira, que atuou no evento também como representante da sociedade civil organizada, citando a conjuntura política atual, defendeu que um desafio para o presente é, não apenas manter, mas também ampliar as políticas de ação afirmativa. “Se estamos aqui nessa universidade hoje e podendo falar para um auditório com vários estudantes jovens negros e negras é resultado de nossa luta”, argumenta.

Para além, a jornalista defende que um desafio existente é o da própria sobrevivência. No Brasil, negros representam 71% das vítimas de homicídios, segundo dados do levantamento feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Caíque, tratando também desse assunto, trouxe para o debate reflexões acerca do genocídio da juventude negra. Segundo ele, a discussão surge a partir de dados que mostram que os jovens negros morrem mais e, muitas vezes, de forma violenta. Vai além, Caíque falou também sobre o ‘epistemicídio’ que seria a invisibilidade que intelectuais negros são vítimas, fazendo com que a sociedade não tenha acesso a esses estudos dessa parcela.

O estudante ressaltou, ainda, sobre a adversidade que a comunidade acadêmica militante tem em relação a engajar as pessoas nessas pautas trabalhadas pela militância negra. “O desafio é fazer com que as pessoas se identifiquem naquilo que você está fazendo e percebam que as mudanças que isso pode gerar podem atingir todo mundo, do mesmo modo como todas essas opressões que sofremos também atingem a todos em menor ou maior grau, é um desafio para dentro e fora da universidade”, pondera.

Saúde da mulher negra
A segunda mesa da programação que tratou sobre ‘Saúde da Mulher Negra’ teve a mediação da mestranda Taisa Gonçalves e contou com as palestrantes Ângela Eulália, auxiliar em Enfermagem, militante sindical e conselheira de saúde, e Thalita Rodrigues, doutoranda e mestre em Psicologia pela UFMG.

Saúde da Mulher NegraPara Thalita, o grande desafio sobre a temática racial é, justamente, o tema do evento: visibilidade. “Precisa-se dar visibilidade da desigualdade racial e do reconhecimento de que o racismo existe e que ele altera a vida da população negra de uma forma que tende a negligenciar, a violentar e violar direitos”, afirma. Segundo ela, é a partir desse reconhecimento que as políticas públicas de equidade podem surgir.

A psicóloga defendeu, ainda, a existência de um mito da democracia racial no Brasil e a necessidade de dar fim a essa ideia. De acordo com Thalita, acredita-se que, pelo país apresentar diversidades étnicas, não há preconceito e nem racismo, mas que não é a verdade.

Ângela em sua fala alegou que para se alcançar uma equidade no tratamento da saúde da mulher negra é necessário, além de reconhecer e eliminar o racismo, o fortalecimento dos movimentos sociais negros nas instâncias de controle social. Além disso, a técnica em enfermagem apontou a carência de se aprofundar o debate sobre impactos das subjetividades das mulheres negras.

Relatos 
No momento destinado para perguntas aos palestrantes, o público presente surpreendeu a organização relatando situações e experiências envolvendo a questão racial. Composto não só por estudantes e professores da Escola, mas também por pessoas externas, o público, ao contar suas histórias, emocionou-se e tornou a discussão um momento de afeto.

Para Caíque, esse fato mostrou um outro ponto forte do evento. “Eventos desse caráter fazem com que a gente tenha inspirações, procure referências, além de toda a questão do pertencimento e de se sentir acolhido”, disse.

Egídio Paulo Francisco NhaveneEgídio Paulo Francisco Nhavene, egresso do curso de doutorado Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN) da UFMG, é de Moçambique, mora em Belo Horizonte há 7 anos, e participou do evento. “Gostei das temáticas tratadas, achei maravilhoso o evento, deveria acontecer mais atividades como essa”, enfatizou.

A estudante de 18 anos, Aleke Iris Ferreira de Oliveira, do Centro Interescolar de Cultura, Arte, Linguagens e Tecnologias (CICALT) do Núcleo Valores de Minas, soube do evento por um grupo de estudos em questões raciais e fez questão de participar. “Agrega muito no processo nosso e é muito importante que a gente tenha esse contato com outras pessoas que estão falando disso também”, reforça.

A professora Kleyde Ventura conclui: “foi um dia de muito aprendizado, deslocamento de subjetividades, de muitas emoções e da gente reconhecer que temos um coletivo interessado em discutir racismo e discriminação”.

No segundo dia de evento, 21 de novembro, foi realizada a exibição do filme “Corra!” (2017) e roda de conversa. “Escolhemos este filme pois ele retrata de forma brilhante a realidade do negro na sociedade e as violências que estamos sendo submetidos”, disse Fernando.

Já no dia 22, a programação foi encerrada com uma conversa coordenada por grupo de estudantes atuantes em movimentos sociais sobre “Movimento negro na universidade”. Durante todos os dias, uma feira de artesanato aconteceu no Pilotis da Escola de Enfermagem. 
Redação: Teresa Cristina– estagiária de Jornalismo
Edição: Rosânia Felipe