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Simpósio interdisciplinar discute prematuridade

aCRIAR 30 ANOSCerca de 100 pessoas se reuniram nesta segunda-feira, 5 de novembro, na Faculdade de Medicina da UFMG, para o Simpósio Interdisciplinar da Prematuridade - ACRIAR 30 anos. O evento foi promovido pelo projeto ACRIAR, Ambulatório da Criança de Risco Faculdade de Medicina da UFMG e organizado em parceria entre professoras da Escola de Enfermagem, Juliana Marcatto e Delma Simão; da Faculdade de Medicina, Maria Cândida Ferrarez e Márcia Penido e da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da UFMG, Lívia Magalhães.

A enfermeira e professora do Departamento Materno Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem, Delma Simão, esteve à frente da coordenação do evento e falou sobre a iniciativa do simpósio. “O objetivo foi trazer as evidências mais recentes sobre a assistência e seguimento ambulatorial dos recém-nascidos prematuros e do diálogo entre as categorias profissionais que atuam para o crescimento e desenvolvimento pleno dessas crianças”, contou.

A professora explica que as categorias envolvidas nesse processo são: Medicina pediátrica, Fisioterapia, Enfermagem, Terapia ocupacional, Fonoaudiologia, Assistência social, Psicologia e Neuropediatria.

Delma relatou sobre a experiência inovadora do ACRIAR que reúne essas categorias em um trabalho integrado e com objetivos em conjunto. “O ambulatório sempre foi composto por uma equipe multidisciplinar, mas até então a gente não tinha um trabalho conjunto, cada um trabalhava pensando no seu espectro de atuação”, disse.

delma e marinaDe acordo com ela, esse trabalho teve início em fevereiro de 2017 e seu primeiro objetivo era combater a evasão das crianças no segmento que tinha uma taxa de 80%. Delma explica que a principal causa dessa evasão era a passagem da criança por vários profissionais e que, por falta da integração, as abordagens se tornavam repetitivas e o processo era exaustivo e desgastante para a família. “Tem sido uma experiência desafiadora que vai muito além do conhecimento científico”, afirmou.

A professora defendeu, ainda, que, além do trabalho de integração, uma das inovações do ACRIAR é uma mudança na dinâmica de cuidado. “Implementamos com esse modelo a filosofia do cuidado centrado na criança e na família, ou seja, toda assistência que nós prestamos tem que ser baseada na necessidade deles e não do profissional”, disse.

A professora Márcia Gomes Machado Penido, do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFMG, coordenadora do projeto ACRIAR, reforça sobre a importância da interdisciplinaridade nesse segmento, tema do Simpósio. “São várias profissões que trabalham juntas e que interagem entre si antes, durante e após o atendimento. A criança é vista de uma forma ampla, global, de maneira a detectar precocemente qualquer tipo de comprometimento na saúde do recém-nascido”, disse.

A professora Bruna Manzo, que também faz parte da história do ACRIAR, moderou a mesa-redonda sobre o percurso do recém-nascido pré-termo extremo - da sala de parto à Unidade Neonatal, que contou a palestra da Juliana Marcatto, enfermeira e também professora do Departamento Materno Infantil e de Saúde Pública da EEUFMG. Ela abordou a visão do enfermeiro, enfatizando a importância da articulação em rede.

A enfermeira defendeu que é preciso entender que todas as instâncias do cuidado são importantes. “Quando uma mulher chega no hospital, na verdade o percurso começou muito anteriormente”. Juliana esclareceu sobre a importância dos primeiros mil dias de um recém-nascido e que começa a ser contado desde a concepção. Nesse sentido, o ACRIAR trabalha com uma linha de cuidado que pensa desde a concepção, o pré-natal, o nascimento, a internação na unidade neonatal e seguimento ambulatorial.

A programação do evento contou também com outras discussões e atualizações sobre inovações nesse segmento. A pediatra e professora Maria Cândida Ferrarez Bouzada Viana, do Departamento de Pediatria trouxe, por exemplo, a temática do Método Canguru e sobre o aleitamento materno.

Quanto ao método, Maria Cândida explicou que serve de pilar no cuidado ao prematuro no Brasil e no mundo. A pediatra destacou sobre a importância de se utilizar o método da maneira correta. “As pessoas não podem achar que posição canguru é a criança no colo da mãe simplesmente. A posição é, na verdade, a criança de fralda com a mãe, de preferência sem sutiã, no contato pele a pele com as costas da criança cobertas”, explicou.

Maria Candida

Sobre o aleitamento materno, a professora defendeu sua importância dizendo que leite da mãe protege a criança sobre vários aspectos, sendo fundamental para favorecer o neurodesenvolvimento do lactente. “Tem uma pesquisa atual mostrando que quanto maior o volume de leite materno ingerido pelo prematuro extremo, maior foi a rede de conexão neural identificada na ressonância magnética”, disse. Ainda segundo Candida, crianças que aleitam ao seio têm em torno 19% menos chance de ter leucemia.

A professora Elysângela Dittz Duarte ministrou sobre operacionalização do cuidado centrado no recém-nascido e família: do discurso à prática. Ela pontuou que de 25 a 50% dos membros de uma família de crianças criticamente doentes vão apresentar depressão, ansiedade, estresse durante ou após a alta hospitalar. Destacou, também que 50% de egressos da Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTIN) apresentam alguma desabilidade após a alta. “Este contexto tem indicado a importância de melhorar o suporte à família para também melhorar o resultado nos paciente e isso deve ser feito por um conjunto de ações estruturadas que atinjam dois objetivos: reduzir o impacto da situação vivenciada e prepará-los para o cuidado e a tomada de decisão”.

A professora falou, ainda, sobre as políticas e leis que buscam assegurar a presença e também qualificar o cuidado como: Política Nacional de Humanização; Método Canguru; O acompanhante para o bebê internado em período integral é um direito previsto no Artigo 12 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990 e a Portaria nº930, de 10 de maio de 2012 que define as diretrizes e objetos para a organização da atenção integral e humanizada ao recém-nascido grave ou potencialmente grave e os critérios de classificação e habilitação de leitos de Unidade Neonatal no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

No que diz respeito à operacionalização, Elysângela destacou a presença da família junto aos recém-nascidos; o suporte à família com informação clara e honesta; a comunicação com a família de forma a valorizar as declarações, reconhecer emoções, escutar, entender o paciente como pessoa e esclarecer dúvidas e questões; uso de outros recursos e da equipe multiprofissional e aspectos operacionais.

ACRIAR 30 anos
ACRIIARO projeto foi fundado em 1988, completando 30 anos no mês de outubro desse ano. Consiste em um ambulatório de follow-up de recém-nascidos prematuros (RNPT), com peso menor ou igual a 1500g e/ou idade gestacional inferior a 34 semanas, provenientes da Unidade de Cuidados Progressivos Neonatal da Maternidade Otto Cirne do Hospital de Clínicas.

A coordenadora do projeto, professora Márcia Penido, falou sobre a importância de comemorar a conquista dos 30 anos. “Nós temos que valorizar os trinta anos de existência do ambulatório , ele cresceu, amadureceu e acompanhou a evolução não só da ciência, mas como a forma de trabalhar junto, hoje é um dia de comemoração da maturidade do ambulatório ACRIAR”, disse.

A professora Delma Simão coordena o projeto de extensão da Escola de Enfermagem da UFMG “Intervenção do Enfermeiro às Crianças atendidas no Ambulatório de Acompanhamento à criança de Risco (ACRIAR) do HC/UFMG”. De acordo com ela, o objetivo é prestar cuidados de enfermagem às crianças(<34 semanas e/ou <1500g) e suas famílias durante os primeiros sete anos de vida, favorecendo a continuidade do cuidado após alta da Unidade de Cuidados Progressivos Neonatal do HC/UFMG.

Santana Aires Lopes, mãe da Ayka Melyssa, que nasceu em Junho de 2017, prematura de 24 semanas, demonstrou, em relato, a importância da existência do ambulatório. “Os medos que temos, que são muito grandes, se tornam bem menores quando tem pessoas que te atendem bem, com carinho, educação e atenção. Parece que até as dores da gente são amenizadas. Já passei por vários outros lugares e achei o atendimento aqui diferenciado”, contou. Ayka ficou internada na Unidade Neonatal por 4 meses e atualmente é acompanhada no ambulatório pela equipe interdisciplinar.
Ayka Melissa

Rosilaine Ermelinda de Oliveira, também mãe de uma criança prematura, a menina Isabelle Vitória, reforçou a fala de Santana. “Foi ótimo o acompanhamento, tiveram total cuidado com a Isabelle e me deixaram tranquila quanto a tudo que estava acontecendo. Minha filha é um milagre”.