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Professora e coordenadora do Banco de leite humano do Hospital Sofia Feldman falam sobre a importância do aleitamento materno

No dia 8 de julho de 2018, o jornal "The New York Times" informou que o governo dos Estados Unidos ameaçou alguns países em um esforço para boicotar uma resolução da Assembléia Mundial da Saúde, da ONU, de apoio ao aleitamento materno. A resolução diz que o leite materno é mais saudável para as crianças e os países devem se esforçar para limitar o marketing impreciso ou enganoso dos substitutos do leite materno. Frente a essa declaração, a enfermeira obstétrica coordenadora do Banco de leite humano do Hospital Sofia Feldman, membro da Rede IBFAN (IBFAN Brasil – Rede Internacional em Defesa do Direito de Amamentar) e aluna do curso de Mestrado Profissional em Gestão de Serviços de Saúde da Escola de Enfermagem da UFMG, Cíntia Ribeiro Santos e a professora da Escola de Enfermagem da UFMG, Fernanda Penido Matozinhos, falaram sobre a importância do aleitamento materno e o que esse boicote pode trazer de malefício para os bebês e para a sociedade.

De acordo com Cíntia, o aleitamento materno é a primeira fonte de vinculo afetivo que se inicia através do contato pele a pele e da troca de carinho entre o binômio mãe e filho. Ela declara que o tema da semana mundial de aleitamento materno deste ano é: “Amamentação é a Base da Vida”, o que reflete justamente a este início de elo entre mãe e bebê.

“Toda vez que a mãe amamenta, ela esta oferecendo doses de vacina e de proteção imunológica para seu filho, o que garante benefícios que perduram para a vida toda. Dessa forma, podemos ver que, os Estados Unidos, se opondo a essa resolução de proteção ao aleitamento materno é um retrocesso, porque o aleitamento materno é a base da vida, é o melhor início de uma família, de uma sociedade civil. O que sabemos, através de estudos, é que o aleitamento materno tem muitos benefícios, começam inclusive logo após o nascimento e se estendem no decorrer da vida dessa criança”, destacou.

Fernanda PenidoA professora da Escola de Enfermagem da UFMG, Fernanda Penido Matozinhos, falou sobre a importância do aleitamento e quais os reais benefícios. “As vantagens do aleitamento materno, a curto e longo prazo, incluem benefícios para a criança, mãe, família e ambiente. O leite materno fornece todos os nutrientes necessários ao adequado crescimento e desenvolvimento da criança. Trata-se da substância personalizada mais específica que o bebê receberá, oferecido em um momento em que a expressão gênica está sendo ajustada para a vida", disse.

Ainda de acordo com a professora, a amamentação é uma estratégia de intervenção econômica e as crianças amamentadas por mais tempo têm menor chance de morbidade, mortalidade e má oclusão dentária, além de maior ‘inteligência’, quando comparadas àquelas amamentadas por períodos mais curtos ou não amamentadas. "Evidências científicas demonstram que o leite materno previne infecções gastrintestinais, respiratórias e urinárias e, também, possui efeito protetor sobre alergias, além de contribuir para uma melhor adaptação a outros alimentos. A longo prazo, o aleitamento materno encontra-se associado à redução do risco de hipertensão, hipercolesterolemia e diabetes, além da diminuição da chance de excesso de peso".

Fernanda destacou, ainda, que a amamentação também beneficia mães: pode prevenir o câncer de mama, aumentar o intervalo interpartal e reduzir o risco de a mulher desenvolver diabetes ou cânceres de mama e ovário. "Ademais, a amamentação contribui para o fortalecimento do vínculo mãe-filho. Investimentos para promover a amamentação precisam ser medidos contra os custos para a saúde e econômicos de não os realizar”, conluiu.

Cíntia explicou que em 1981, a Organização Mundial da Saúde recomendou que os países aderissem à adoção do código internacional de promoção comercial dos substitutos do leite materno. O Brasil, em 1988, aderiu a esse código que é a NBCAL, Norma Brasileira para Comercialização de Alimentos para Lactentes e Crianças de Primeira Infância, Bicos, Chupetas, Mamadeiras e Protetores de Mamilo, que corresponde a um conjunto de leis que normatizam a comercialização dos alimentos e produtos de puericultura com o objetivo de garantir aos lactentes e crianças o direito á amamentação diretamente no seio materno.

“Esse posicionamento contrário que os EUA tiveram em relação à resolução de incentivo ao aleitamento materno é muito perigoso e pode trazer muitos malefícios em longo prazo. Por isso, precisamos mobilizar cada vez mais a sociedade civil sobre a importância da amamentação, precisamos mostrar para as gestantes, mulheres e famílias que existe um grande conflito de interesse das indústrias e um marketing não ético de propagandas de fórmulas infantis, chupetas e mamadeiras. Tudo isso desencoraja a mulher de acreditar no seu potencial de amamentar e por muitas vezes frente aos desafios e dificuldades vivenciadas durante o puerpério ela acaba não amamentando e sendo fortemente influenciada e desencorajada a não amamentar. É importante ensinar para as pessoas que existem leis que protegem o aleitamento materno e que quando um supermercado, lojas e ou farmácias fazem propagandas estimulando as mães a comprarem os produtos que concorrem com o aleitamento materno isso é crime, e vai contra os princípios de proteção ao aleitamento materno”, declarou Cíntia.

O aleitamento materno no Brasil
Cíntia Ribeiro Santos também destacou que o Brasil é um país que cumpre muito bem as políticas públicas de proteção ao aleitamento materno, mas que precisa avançar muito em explicar para as pessoas do risco que os conflitos de interesses trazem.

Cíntia“Assim como dos Estado Unidos, o Brasil pode correr alguns riscos, pois, às vezes, o marketing abusivo que algumas indústrias fazem, de mostrar que as fórmulas e os substitutos do leite humano são benéficos às crianças é errôneo. Porque, na verdade, o que é preciso fazer é o contrário. É trazer um marketing que empodere a mulher para que ela possa amamentar seu filho; de falar sobre a importância dessa amamentação durante o pré-natal, nas escolas, trabalhar com as crianças para que elas cresçam cidadãos conscientes, nas universidades, ou seja, introduzir essa cultura da importância da amamentação, que é uma cultura mamífera”, concluiu.

Segundo Cíntia, a Rede IBFAN é a Rede Internacional em Defesa do Direito de Amamentar que luta pela promoção do aleitamento materno com profissionais, com ativistas do aleitamento materno. Além disso, ela é responsável pela fiscalização da NBCAL, para assegurar se os estabelecimentos estão descumprindo essa norma brasileira de comercialização dos alimentos que competem com o aleitamento materno. “Quando entramos em uma farmácia ou em um supermercado, que há uma promoção de fórmulas infantis de primeira infância, isso está infringindo a lei e prejudicando a vida de uma determinada criança. Por isso a importância da fiscalização”.