Apresentacao

Logomarca do Centro de Memória da Escola de Enfermagem da UFMG: história e significados

 

Geralda Fortina dos Santos 1

Sabrina Antonieta Moreira 2

Valda da Penha Caldeira 3

Rita de Cássia Marques 4


Em dezembro de 2006, a Coordenação do Centro de Memória da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais (CEMENF) solicitou à Equipe de Criação Gráfica e Planejamento do Centro de Comunicação da UFMG (CEDECOM) para estudar a possibilidade de criação da logomarca do Centro. Em reunião com a presença de Iara Veloso (Coordenadora), Geraldo Magella Perpétuo e Gina de Souza Nogueira (membros da equipe de Criação) do CEDECOM, das Professoras Geralda Fortina dos Santos, Rita de Cássia Marques e Valda da Penha Caldeira (Coordenação do Centro) e da aluna bolsista Fernanda Batista Santos foram apresentadas diferentes e diversas idéias sobre objetivos, finalidades e funções do Centro. As concepções apresentadas deixaram em evidência que a enfermagem, historicamente, tem como essência o cuidar das pessoas e que o Centro de Memória pretende se desenvolver como um espaço de preservação e de conservação da história da Escola de Enfermagem da UFMG, da história da enfermagem e da saúde. Atuar como um espaço dinâmico para troca de experiências e de vivências sobre história e memória, favorecendo os estudos e pesquisas na área.

 

Em março de 2007 em reunião com a presença dos membros participantes da primeira reunião, com substituição da bolsista anterior por Sabrina Antonieta Moreira, a equipe do CEDECOM apresentou a proposta da logomarca expondo sobre os sentidos e significados da sua criação. Segundo Iara Veloso, coordenadora do projeto de criação, a equipe trabalhou com a idéia de que a enfermagem cuida das pessoas que precisam de ajuda porque estão doentes, feridas. O cuidar da enfermagem numa perspectiva ampla, muito mais de natureza expressiva do que instrumental. A logomarca apresenta uma mão estilizada acolhendo algo, representado por um pequeno círculo aberto em sua parte inferior, como se fosse uma cabeça. De acordo com Gina Nogueira, houve inspiração na concha que produz a pérola, a partir de uma ferida na ostra.

 

O encantamento sentido por nós pela imagem e os argumentos dos criadores da logomarca nos incentivaram a descrever as idéias que nos surgiam a respeito da logomarca. As impressões de Geralda Fortina foram: uma mão que acolhe algo precioso, luminoso, que emite luminosidade, algo angelical – a imagem de um anjo com a sua auréola. A idéia de harmonia, de delicadeza. De algo límpido, transparente. Uma mão que acolhe e ampara a memória e a história, dimensões preciosas na perspectiva da instituição (EEUFMG) e da profissão enfermagem. Formas singelas e cores agradáveis que emanam sensibilidade. Sabrina Moreira descreve as suas impressões, buscando resgatar a fala dos criadores: o principal objetivo da logomarca foi não passar a idéia instrumentalista, ou seja, de frieza e sim remeter a uma idéia de cuidado. Para fugir da perspectiva de frieza foram utilizados elementos com formas mais arredondadas e menos assimétricas. Acrescenta as suas percepções: a logomarca escolhida resgatou de forma perfeita a idéia de cuidado não somente com o outro, mas a idéia de que um centro de memória também visa cuidar da historia, do patrimônio. “À primeira vista observei a mão e quase que automaticamente a lâmpada como símbolo da enfermagem”.

 

Outros elementos como a imagem da concha protegendo a pérola, também remetendo a idéia de cuidado e memória, surgiram depois. Além disso, a logomarca se assemelha com um cm (centro de memória). Sem duvida, a logomarca atendeu não só as expectativas, mas, surpreendeu com a riqueza de detalhes.

 

A partir dessas idéias, passamos a pensar o Centro de memória como um espaço de produção, acolhimento e conservação de suas pérolas – documentos orais e escritos, objetos, mobiliário, fotos...,enfim, história e memória. Que relações existem entre estas preciosidades? A curiosidade nos levou a buscar informações sobre a formação das pérolas e encontramos descrições sobre o processo de constituição da pérola e os cuidados com as mesmas que nos conduziram a apresentar possíveis analogias com relação ao seu processo de produção e aos cuidados com os documentos.

 

O processo natural de formação da pérola tem início quando uma substância estranha – um grão de areia, por exemplo – se deposita no interior da concha, causando-lhe uma irritação, desencadeando uma reação para tentar isolar o "invasor", que inclui a produção de uma secreção que recobre o corpo estranho. 5

 

Quando o pequeno grão de areia se instala, ele resiste e luta, não permitindo à concha, apesar dos esforços, expulsá-lo. Então, a concha trata de proteger-se, elaborando uma substância preciosa que envolverá o pequeno grão, transformando-o em uma pérola.

 

A pérola vai crescendo causando muita dor para o molusco, que segue destilando a substância preciosa doadora do brilho da pérola. Não existindo mais espaço e nem ar para o molusco, ele, então, sucumbe. Ele já não existe: a pérola assumiu seu lugar. Neste momento, as duas valvas da concha, não mais controladas pelo molusco, se abrem e manifestam à luz um tesouro: a pérola.

 

As pérolas são frágeis e precisam de cuidados especiais para não perderem suas características.

 

Assim como as pérolas os documentos requerem cuidados especiais para sua manutenção e conservação.

 

A sujidade é o agente de deterioração que mais afeta os documentos. Quando conjugada a condições ambientais inadequadas, provoca reações de destruição de todos os suportes no acervo. Portanto, a higienização das coleções deve ser um hábito de rotina na manutenção de bibliotecas ou arquivos, sendo assim, podemos dizer que é conservação preventiva por excelência. Isto aumenta sensivelmente sua vida útil. A limpeza deve ser feita em intervalos regulares, cuja freqüência é determinada pela velocidade com que a poeira se acumula nos espaços de armazenagem.

 

O acondicionamento tem por objetivo a proteção dos documentos que não se encontram em boas condições contra agentes externos e ambientais ou para a proteção daqueles que foram restaurados a favor da manutenção da integridade física da obra, armazenando-os de forma segura.

 

Finalizando, é importante ressaltar a possibilidade de buscar mais analogias entre a pérola e o fazer histórico, que é amplo e diversificado. Contudo, não foi o objetivo deste texto. A história pode estar na correspondência, no diploma, na certidão, no broche, no fio de cabelo, na faca, na escarradeira, no uniforme, na pinça, etc. O que define a importância do documento é o olhar de quem o busca. O cuidado com a memória e a história não se resume no cuidado com os papéis. Pensamos que a analogia da constituição das pérolas com a constituição do conhecimento histórico e da memória é pertinente. A história também se constrói, com momentos de dor. Grandes mudanças da humanidade se deram a partir de pequenos grãos que foram crescendo até se tornarem guerras e revoluções. A construção da historia se dá graças ao trabalho silencioso de homens e mulheres que participam de mudanças no seu trabalho diário, às vezes, silencioso e desconhecido. O documento escrito, a foto, o objeto histórico, por vezes fica anos escondido na sua concha e só vem à luz pelo olhar atento do historiador/pesquisador que revela ao mundo a importância daquela pequena peça que, encerrada nos sótãos, porões e armários, não existia para o futuro, representando, silenciosamente, apenas um resquício do passado, de dor ou de alegria. O trabalho de um Centro de Memória é produzir e guardar as pérolas até que elas possam se tornar brilhantes nas mãos de quem procura nelas respostas e testemunhas de um tempo vivido.

 

Nem toda concha tem pérola, nem todas passaram pela dor e a ventura desencadeada por um cisco. Nem toda produção humana vira história, mas todos podem contribuir para que a história se faça, por menor que seja seu movimento na terra.

 

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1 Enfermeira. Doutora em Educação pela UFMG. Professora da EEUFMG. Coordenadora do Centro de Memória da Escola de Enfermagem da UFMG. Membro do Núcleo de Pesquisas e Estudos sobre o Quotidiano em Saúde.

 

2 Aluna de Graduação em Enfermagem da EEUFMG. Bolsista de Trabalho do Centro de Memória da EEUFMG

 

3 Enfermeira. Mestre em Enfermagem pela UNI-RIO. Membro da Coordenação do Centro de Memória da Escola de Enfermagem da UFMG. Membro do Núcleo de Pesquisas e Estudos sobre o Quotidiano em Saúde.

 

4 Historiadora. Doutora em Historia pela UFF, Professora da EEUFMG. Sub-coordenadora do Centro de Memória da Escola de Enfermagem da UFMG. Coordenadora do Laboratório de Historia e Educação em Saúde.

 

5 Entendemos por documento a noção expressa por Le Goff (1992, p. 540), quando ele diz: “a história faz-se com documentos escritos, sem dúvida, quando estes existem. Mas pode fazer-se sem documentos escritos, quando não existem [...]. Como tudo o que, pertencendo ao homem, depende do homem, serve ao homem, exprime o homem, demonstra a sua presença”. Em outras palavras, o autor adverte: “Há que tomar a palavra documento no sentido mais amplo, documento escrito, ilustrado, transmitido pelo som, imagem, ou de qualquer outra maneira” (Enciclopédica Einaudi – Memória-história).